Uma das piores coisas para os costumeiros bebedores de
leite é vê-lo derramar após a fervura.
Depois do acidente, todo mundo limpa a chapa do fogão, os
queimadores, o recipiente, mas xingando!
Por isso, ficamos animados, quando nos contaram sobre uma
invenção maravilhosa: uma leiteira que apitava antes da fervura do leite, com o
nobre objetivo de evitar o seu derramamento.
Procuramos, procuramos, até que soubemos de sua venda em
uma loja de artigos para o lar.
Entretanto, quando chegamos ao comércio, o vendedor nos
informou que acabara o estoque, em razão da alta procura. Bom, por isso,
deduzimos, a coisa deveria ser muito boa mesmo, imperdível!
Deixei meu telefone com ele, para que me avisasse quando
uma nova remessa chegasse.
E não é que o infeliz ligou?
Compramos a geringonça e no outro dia, de manhã, fomos
testar o seu funcionamento.
Leite dentro da leiteira, fogo acesso e, de repente, ela
começou a apitar. Nos primeiros segundos, era um assobio baixo, que foi se
elevando, elevando, rapidamente, até ficar insuportável.
Todo mundo acordou, perguntando o que estava acontecendo.
Incomodados com o barulho e explicando, justificando a aquisição, acabamos
desatentos. Aí, o leite ferveu e derramou!
No outro dia de manhã, mais um treinamento. Afinal,
talvez, imediatamente antes da fervura, o som podia ter mudado o timbre e nós
não havíamos percebido.
Leite dentro da chaleira fraudulenta, fogo acesso,
assobio, e o pessoal acordou de novo, mas todos de mau humor. Discussão pra cá,
discussão pra lá, o leite ferveu e derramou de novo!
Ligamos para o vendedor, a fim de conseguir alguma dica,
mas ele não nos atendia de modo algum.
No terceiro dia, fechamos todas as portas dos quartos, da
cozinha, o que não ajudou muito.
Leite dentro da panela escandalosa, fogo acesso e, desta
vez, com muita atenção, não derramou. Só estávamos um pouco surdos. Então,
pensamos: se é para ficar pajeando o leite esquentar, pelo menos, vamos
eliminar o barulho. Com uma pequena lima, abri um pouco mais o buraco do pito,
para ver se diminuia o volume do som.
No quarto dia, o vizinho já não nos cumprimentava com
aquele carinho no olhar.
Deixamos o teste para a hora do almoço.
Leite dentro do tacho louco, fogo acesso e, em vez do
assobio, apareceu um som de pigarro, todavia em alto volume também.
O porteiro ligou no interfone, a mando do síndico, para
perguntar se estávamos precisando de ajuda.
Telefone tocando, interfone tocando, campainha tocando, a
gente de casa reclamando... Putz! O leite ferveu e derramou de novo!
Os membros do grupo, reunidos em assembléia, deliberaram
que o investimento deveria ser inscrito como perdas e danos na contabilidade
familiar. Não poderia haver nem a tentativa de desligar o apito, para se evitar
mais uma tentativa frustrada, que poderia comprometer a harmonia do lar.
Coloquei o recipiente em sua embalagem original, embrulhei
em papel de presente, passei na loja e deixei o regalo, no caixa, para o
vendedor.
Afinal, se todos os consumidores tivessem a mesma
atitude, eu queria ver onde ele iria enfiar tantas leiteiras sibilantes!

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