Por amor a Deus, homens e mulheres isolam-se nos mosteiros e
conventos de "Meteora". Mesmo assim, o filme Meteora, na competição
em Berlim, mostra que o amor humano e a conjunção carnal são tentações capazes
de resistir à água benta, ao incenso e aos cânticos gregorianos. Ícones,
incenso, cânticos, velas e mulheres vestidas dos pés à cabeça com longos
vestidos cobertos de mantas ou véus, que lembram o chador, pouco faltando para
a burca muçulmana, assim é o filme Meteora, que mostra o mosteiro masculino e o
convento ortodoxo feminino em Tessaly, no alto de montanhas quase inacessíveis
a 550 metros de altura.
Os primeiros eremitas fixaram-se ali no século XI e mais
tarde, diante da ameaça dos turcos, os ortodoxos construíram, no século XIV, um
refúgio. O cineasta grego, Spiros Stathoulopoulos, filho de mãe devota grega
ortodoxa, escolheu "Meteora" como lugar do encontro entre um monge
grego e uma freira russa, num caso de amor proibido, mas praticado entre atos
de devoção, sem a frequência que poderiam querer os pagãos.
A história de amores proibidos entre padres e freiras que
fazem votos antinaturais de castidade tem como mais conhecido o casal Heloisa e
Abelardo, de que se fala mesmo ter ficado grávida do seu amante proibido.
Em "Meteora", ele chama-se Theodoros e ela não tem
nome, uma simples freira devota que se autoflagela queimando a palma da mão com
a chama da vela, provavelmente para se purificar, não se sabe do quê, pois
quase perto das nuvens e isolada do mundo pouco pecado poderia ter. Mas a tentação
é grande e tanto ela como Theodoros apaixonam-se, a ponto de comunicarem nos
dias de sol com os reflexos de espelhos lançados de suas respetivas janelas.
Eles vivem entre o desespero e a liberdade, até o momento de
concretizarem o pecado do desejo carnal. Não se sabe se o amor pode redimir
monges e freiras, mas Theodoros e a sua amante, não mais virginal, retornam
depois do coito proibido às suas velas, incensos e litanias.
O filme tem dois tipos de apresentação - a real com
personagens de carne e osso, e a em desenho, não faltando uma cena do que se
poderia imaginar ser o inferno. E, surpresa, a leitura do filme pode ser feita
tanto por beatos de todos os credos como agnósticos e ateus. Uns elogiando, na
entrevista coletiva, o clima de misticismo e de devoção reinante nos 82 minutos
de projeção; e os outros surpresos com a irreverência perto da blasfémia e da
heresia, mostrada.
Belo filme, com a sua iconografia e a narração que enfatizam
a alegria do salmista que, ao louvar o Senhor como seu pastor, se define como
simples carneiro. Provável grande surpresa do Festival pelo milagre de
contentar crentes e não crentes.
Tabu aplaudido em Berlim
O filme portugues “Tabú”, do cineasta Miguel Gomes, na
competição no Festival Internacional de Cinema de Berlim, foi exibido diante da
crítica e teve boa recepcão, com bastante aplausos. Portugal ficou doze anos
sem participar da competicao e este ano poderá obter algum prémio. Trata-se de
uma rara co-producao luso-brasileira, e o Brasil, que nao teve filme selecionado,
assim participa indiretamente do Festival.
O filme conta o passado de uma senhora idosa, Aurora, que
morre em Lisboa e faz um retorno à epoca da colonização de Mocambique. Uma
morte ocorrida, dentro do filme, é mesmo noticiada pela frente de independência
como sendo o primeiro ato contra o regime colonialista português. Há mesmo o
começo do filme com a chegada do colonizador, do tipo Livingstone, mas
português, comido por um crocodilo Porem, não se trata de tema político, mas de
uma história amorosa, guardada em segredo por Aurora, a personagem que lá
vivera.
O filme faz também, como “O Artista”, um retorno ao cinema
mudo, como longas sequências na segunda parte, em cenas na África e Lisboa, sem
som.
Um pormenor a
destacar. Miguel Gomes confirmou que o filme passará no Brasil mas com legendas
em brasileiro. Apesar da recente uniformização ortográfica, nem todos no Brasil
compreenderão os diálogos.
Rui Martins, do Direto da Redação

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