segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Amor proibido entre uma freira e um monge



Por amor a Deus, homens e mulheres isolam-se nos mosteiros e conventos de "Meteora". Mesmo assim, o filme Meteora, na competição em Berlim, mostra que o amor humano e a conjunção carnal são tentações capazes de resistir à água benta, ao incenso e aos cânticos gregorianos. Ícones, incenso, cânticos, velas e mulheres vestidas dos pés à cabeça com longos vestidos cobertos de mantas ou véus, que lembram o chador, pouco faltando para a burca muçulmana, assim é o filme Meteora, que mostra o mosteiro masculino e o convento ortodoxo feminino em Tessaly, no alto de montanhas quase inacessíveis a 550 metros de altura.
Os primeiros eremitas fixaram-se ali no século XI e mais tarde, diante da ameaça dos turcos, os ortodoxos construíram, no século XIV, um refúgio. O cineasta grego, Spiros Stathoulopoulos, filho de mãe devota grega ortodoxa, escolheu "Meteora" como lugar do encontro entre um monge grego e uma freira russa, num caso de amor proibido, mas praticado entre atos de devoção, sem a frequência que poderiam querer os pagãos.
A história de amores proibidos entre padres e freiras que fazem votos antinaturais de castidade tem como mais conhecido o casal Heloisa e Abelardo, de que se fala mesmo ter ficado grávida do seu amante proibido.
Em "Meteora", ele chama-se Theodoros e ela não tem nome, uma simples freira devota que se autoflagela queimando a palma da mão com a chama da vela, provavelmente para se purificar, não se sabe do quê, pois quase perto das nuvens e isolada do mundo pouco pecado poderia ter. Mas a tentação é grande e tanto ela como Theodoros apaixonam-se, a ponto de comunicarem nos dias de sol com os reflexos de espelhos lançados de suas respetivas janelas.
Eles vivem entre o desespero e a liberdade, até o momento de concretizarem o pecado do desejo carnal. Não se sabe se o amor pode redimir monges e freiras, mas Theodoros e a sua amante, não mais virginal, retornam depois do coito proibido às suas velas, incensos e litanias.
O filme tem dois tipos de apresentação - a real com personagens de carne e osso, e a em desenho, não faltando uma cena do que se poderia imaginar ser o inferno. E, surpresa, a leitura do filme pode ser feita tanto por beatos de todos os credos como agnósticos e ateus. Uns elogiando, na entrevista coletiva, o clima de misticismo e de devoção reinante nos 82 minutos de projeção; e os outros surpresos com a irreverência perto da blasfémia e da heresia, mostrada.
Belo filme, com a sua iconografia e a narração que enfatizam a alegria do salmista que, ao louvar o Senhor como seu pastor, se define como simples carneiro. Provável grande surpresa do Festival pelo milagre de contentar crentes e não crentes.

Tabu aplaudido em Berlim
O filme portugues “Tabú”, do cineasta Miguel Gomes, na competição no Festival Internacional de Cinema de Berlim, foi exibido diante da crítica e teve boa recepcão, com bastante aplausos. Portugal ficou doze anos sem participar da competicao e este ano poderá obter algum prémio. Trata-se de uma rara co-producao luso-brasileira, e o Brasil, que nao teve filme selecionado, assim participa indiretamente do Festival.
O filme conta o passado de uma senhora idosa, Aurora, que morre em Lisboa e faz um retorno à epoca da colonização de Mocambique. Uma morte ocorrida, dentro do filme, é mesmo noticiada pela frente de independência como sendo o primeiro ato contra o regime colonialista português. Há mesmo o começo do filme com a chegada do colonizador, do tipo Livingstone, mas português, comido por um crocodilo Porem, não se trata de tema político, mas de uma história amorosa, guardada em segredo por Aurora, a personagem que lá vivera.
O filme faz também, como “O Artista”, um retorno ao cinema mudo, como longas sequências na segunda parte, em cenas na África e Lisboa, sem som.
Um pormenor a destacar. Miguel Gomes confirmou que o filme passará no Brasil mas com legendas em brasileiro. Apesar da recente uniformização ortográfica, nem todos no Brasil compreenderão os diálogos.



Rui Martins, do Direto da Redação

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