terça-feira, 15 de abril de 2014

A Rua do Tombo - A Volta


Há mais de dez anos, escrevi uma crônica sobre os tipos de tombos que as pessoas sofrem em um trecho de passeio, com um grave defeito em seu piso, na quadra onde moro.

Esse texto foi bastante divulgado por correio eletrônico e publicado em diversas páginas eletrônicas.

Foi um dos escolhidos para o livro da Maitê Proença, nossa inesquecível Dona Beja, exímia amazonas de Araxá, denominado “É Duro Ser Cabra na Etiópia”.

Até hoje, como é previsível nas administrações urbanas, o passeio continua sem reparos. E os tombos continuam.

Porém, como substituí minhas caminhadas por horas de academia, deixei o estudo de lado, parcialmente apenas, pois, de vez em quando, mato saudades das minhas jornadas.

Assim, cumprindo promessa, relato os novos tipos únicos catalogados, e, com razões, encerro aqui meu trabalho. São eles:

  1. Pino de Boliche: esse foi sofrido por um provável praticante de judô, pois ele caiu fazendo o rolamento perfeito, aprendido nos tatames, justamente para se defender, nunca para atacar, como reza a filosofia oriental. Acontece que, na frente dele, havia três pessoas andando mais devagar que o rolamento! “Strike”!  A velhinha nordestina ainda conseguiu gritar: - Valei-me, Padinho Ciço! Mas também caiu.

  1. Passo do Símio: o cara veio e caiu. Saiu andando de quatro, como um bugio, mas se equilibrou novamente como um bípede. Voltou a andar de quatro, como um orangotango, se equilibrou em duas pernas tortas, girou e se sentou no gramado, com os joelhos dobrados, coçando a cabeça.

  1. Diamante Negro: o indivíduo vinha correndo de forma ritmada, como um jogador de futebol que vai receber o cruzamento do ponta-esquerda. Bateu no ressalto da calçada, virou de costas, levantou a perna esquerda, depois, a direita. Digno do lance denominado bicicleta do Leônidas da Silva, se houvesse uma bola, ela seria metida no ângulo, sem chance de defesa para o goleiro infeliz. Caiu de costas, único movimento não previsto na jogada. Corri para cumprimentar, digo, acudir o atleta, pois, assim como os jornalistas, devo proteger meus colaboradores. Quando cheguei, ele já havia recobrado a respiração. Fiz algumas perguntas, para ver se ele estava bem, e ele me respondeu com movimentos de cabeça. Acho que ainda não havia recobrado a voz.

  1. Carlitos: no caso desse sujeito, desconfiei de um princípio de labirintite, pois as consequências da topada foram além da normalidade. Ele perdeu o equilíbrio e passou a caminhar, tropegamente, com um pé na rua e outro na calçada. Lembrou famosa cena do Chaplin, no filme O Grande Ditador. Enfim, como um maltrapilho, deitou na sarjeta.

  1. A Volta: na verdade, o nome correto deste último é “a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”, frase de famosa música de Geraldo Vandré. Foi assim! Eu vinha andando, relaxado com as músicas saídas pelos fones de ouvido, despreocupado, quando cheguei ao ponto máximo da Rua do Tombo. Pisei um pouco antes do murundu, mas o chão cedeu e eu tropecei! O tombo ocorreu em três atos, como nas grandes tragédias do teatro. No primeiro, apresentei alguns passos da tradicional dança popular cossaca: mãos no chão, atrás das costas e pernas para o alto. Acho até que ouvi alguns aplausos!

Depois, veio o momento aerodinâmico: tentei me equilibrar, como se estivesse brincando de aviãozinho.

Por último, aterrei, rolando, moendo todos os ossos de todos os lados.

Creio que estarei no próximo Livro dos Recordes. É inédito digitar uma crônica com um dedo só e todo besuntado de arnica.


Sérgio Antunes de Freitas

segunda-feira, 31 de março de 2014

Embalagens enganosas


Dei razão para minha esposa, quando ela me pediu: - Já que você vai ao supermercado, compra um xampu para mim. Já anotei a marca neste papel e você não vai errar.

Não era exagero, pelo que complementou: - Dá ultima vez, você errou e trouxe condicionador. Lembra?

Não era questão de lembrar, mas de não esquecer, tamanha foi a bronca que levei pela desatenção. Na verdade, eu nunca soube direito a diferença entre os dois.

Desta vez, pensei, não vai ter erro, pois, além da marca anotada, ainda vou observar o prazo de validade. Quando faço um serviço, tem que ser completo, oras!

Vamos lá! Deve ser na sessão de cosméticos.

Procurei, procurei, procurei e nada da tal marca.

Perguntei ao funcionário e ele me confirmou que o produto estava em falta.

Só havia duas opções, não levar nada ou comprar outro, com boa aparência, para demonstrar carinho. Esta segunda me pareceu mais conveniente, mesmo com prejuízo financeiro quase certo.

Passei a escolher o recipiente mais adequado, atento para discernir entre xampu ou condicionador.

Peguei o primeiro, no qual estava escrito com letras lindas e coloridas: “Novo”, “Cientificamente Comprovado”, “Para Cabelos Normais” etc. Mas seria xampu ou condicionador?
Fui ver na parte de trás! A letrinha miúda, quase impossível de ser enxergada, informava: “Produzido a partir das ervas mais finas...” e não consegui ler mais nada.

Fui ao segundo. Na embalagem com desenho futurístico, a informação: “Preferido pelas Grandes Estrelas”.

E eu nem sabia que o sol tinha cabelos!

E mais informações: “Nova Fórmula”, “Produção Sustentável”, “Cabelos Macios e Sedosos”. E daí? É xampu ou condicionador?

Comecei a tergiversar mentalmente: Será que existe xampu para as mulheres que fazem a tal chapinha ou só para loiras?

Fui percorrendo outras prateleiras. Não, isso é macarrão! Não, é guardanapo! Ôpa, não posso esquecer da cerveja!

Voltei para perto dos cosméticos.

“Fórmula Mágica”, “Atuante Reparador”, “Fortificante”, “Combate a Fragilidade”, “Eficaz Contra o Ressecamento”, “Reconstituinte”, “Hidrata e Perfuma, “Anti-Queda”, “Anti-Coceira”, Proteção de Cor”, “Controle Natural da Oleosidade”, “Cabelo Sem Pontas”... mas é xampu ou condicionador, pombas?

Eu já estava desistindo, quando li, em letras normais: xampu!

A embalagem era bonita, cheia de palavras qualificadoras do conteúdo, mas não havia dúvidas, estava escrito afinal: xam-pu!

E estava dentro do prazo de validade!

Pôxa! Bate uma alegria nessas pequenas vitórias.

Cheguei e anunciei com voz forte e orgulhosa: - Seu xampu está aqui em cima da mesa. Não havia aquela marca, mas eu comprei outra, para ver se serve. Se não servir, a gente dá para alguém que queira. Tudo bem?

- Tudo bem, meu Amor! Vou ver já, já, Querido!

Fui à varanda e abri um livro para continuar uma leitura prazenteira, daquelas que prende a atenção mesmo. Merecida paga!

Mas, de repente, escutei: - Você está de brincadeira, seu quadrúpede?

- Que foi, Muié?

- Isso é xampu para cachorros.

Como diz o personagem Bode Gaiato: “e assim que fui dormir de couro quente"!


Sérgio Antunes de Freitas

quarta-feira, 19 de março de 2014

Até tu, Marina?


Gosto de dar minha opinião através de textos singelos sobre temas que me interessam particularmente, como política energética, fontes renováveis de energia, (in)justiça social, meio ambiente, política universitária. E não deixo de escrever quando determinado assunto me deixa indignado. Particularmente, quando existe o interesse notório de iludir, enganar, ludibriar, a boa vontade das pessoas.

Daí escrever este breve comentário sobre o relacionamento político de uma das pessoas públicas brasileiras de grande reconhecimento e de enorme respeitabilidade, a ex ministra Marina Silva.

No portal oficial dessa ilustre personalidade destaca-se: “ganhou reconhecimento dentro e fora do país pela defesa da ética, da valorização dos recursos naturais e do desenvolvimento sustentável”.

Sem dúvida requisitos louváveis para alguém que se dedica há 30 anos à vida pública, conquistando o respeito dos que querem e lutam por um mundo melhor, no presente e para as gerações futuras. A posição combativa e corajosa da cidadã Marina fez com que ela conquistasse as mentes e corações de uma parcela importante do povo brasileiro (e do mundo afora). Na sua candidatura ao cargo público mais importante, nas eleições presidenciais de 2010, conquistou mais de 20 milhões de votos.

Todavia, recentemente, o “jogo político” levou-a a se aliar com um ex-colega de ministério (1ª gestão do governo Lula), que ocupou o cargo de ministro de Ciência e Tecnologia, o atual governador de Pernambuco e pré-candidato a presidente da Republica nas eleições de 2014.

Portanto, Marina conhece seu aliado da hora, inclusive com posições antagônicas às suas quando participaram do mesmo Ministério na questão dos transgênicos, da reativação do Programa Nuclear Brasileiro e mesmo do entendimento que cada um tinha, e continua a ter, sobre desenvolvimento sustentável, tema tão caro à ex-ministra.

As diferenças entre ambos, atuais carne e unha, são abismais. Inclusive para os marqueteiros, e os que fazem a propaganda dos candidatos, a dificuldade de justificar a aliança de ambos levou-os a trazer a tona na biografia de cada um os seus tutores políticos (ambos falecidos): o ambientalista acreano Chico Mendes, e Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco e avô de Eduardo Campos. A intenção é de convencer o eleitor de que os dois têm tudo a ver, complementam-se. Como se fosse possível misturar água e óleo.

De antemão, não será uma tarefa fácil, visto que o eleitor um pouco mais informado e esclarecido vai comparar o que de fato aconteceu e acontece em Pernambuco na administração do pré-candidato presidencial, que se propõe a disseminar em todo Brasil a “nova política (?)”, sua “gestão inovadora (?)”, “competente (?)” e deixar para trás as “raposas políticas (?)”.

Sua ação predatória em relação ao meio ambiente, nos 8 anos de governo, é visível a olho nu em Pernambuco. Só não enxerga quem não quer ver. Ao estimular a vinda de indústrias sujas, como termoelétricas a combustíveis fósseis (quem não se lembra da “maior termoelétrica do mundo” defendida pelo governador e rechaçada pela sociedade), sua defesa da vinda da uma usina nuclear para o interior do Estado (basta ler as noticias nos jornais da época), a atração por estaleiros que, sem dó nem piedade, expulsou pescadores e narisqueiras e diminuiu sensivelmente a pesca artesanal em Pernambuco. Além do desmatamento, como nunca visto em um período tão pequeno de tempo, na região de Suape, onde o mangue, a mata Atlântica e a restinga desapareceram em nome do tal “desenvolvimento”. A vinda da refinaria e da indústria petroquímica para o Estado, importando para o território o maior vilão do aquecimento global e consequentemente das mudanças climáticas, o petróleo, e todas as mazelas que aporta ao meio ambiente e à saúde das pessoas.

Sem dúvidas as questões sociais, de expulsão das pessoas de suas moradias, a propalada geração de emprego e renda (mais de 40 mil empregos serão perdidos entre 2014 e 2016 em Pernambuco), educação sofrível, os péssimos serviços públicos de água, energia e esgoto/saneamento, o tratamento oferecido da “idade da pedra” aos jovens e adolescentes infratores. Além da forma monocrática de gestão do poder (chamada por alguns de "neocoronelismo”), com o evidente subjugo dos outros poderes constituídos (legislativo e judiciário). Sem falar da posição de atrelamento da mídia empresarial do Estado, que se tornou uma extensão do Diário Oficial, e que colaborou efetivamente para a criação da “ilha da fantasia” em que se transformou Pernambuco.

Enfim, nestas poucas linhas é impossível elencar os pontos tão divergentes nos discursos e práticas de ambos os personagens políticos que hoje mostram uma “simbiose” incomum, motivados muito mais pelos interesses pragmáticos do que programáticos, em conquistar o poder.


Portanto, é importante nesta eleição a valorização do voto, analisar, conhecer mais a historia dos candidatos, suas alianças. Ter muita clareza em relação ao quadro real, que se impõe sobre o virtual, o propagandístico. Lamentavelmente para o povo brasileiro que ira escolher, as opções não são nada alvissareiras. Mas que pelo menos vote conscientemente e não deixe ser enganado ou ludibriado por falsas promessas e discursos vazios que não refletem a pratica de quem fala.

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de pernambuco

segunda-feira, 17 de março de 2014

Devaneios ufanistas: caso do HC da UFPE


A tragédia vivida pelos usuários do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) nos últimos anos, conforme frequentemente noticiado pelos órgãos da imprensa local, teve seu (aparente) desfecho em 11 de dezembro de 2013, data em que a UFPE firmou contrato com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) para que esta administrasse o HC. Tal contrato é um atestado, passado pela própria UFPE, da incompetência de seus gestores e de sua Administração Central em resolver os problemas do Hospital (a EBSERH é uma empresa pública de direito privado, criada pela Lei Federal nº 12.550, de 15 de dezembro de 2011, com estatuto social aprovado pelo Decreto nº 7.661, de 28 de dezembro de 2011).

Passados pouco mais de dois meses, o vice-reitor da UFPE publicou em um jornal pernambucano, em pleno sábado de Zé Pereira (1/3/2014), um artigo denominado “Um Novo Hospital”. Sem dúvida, os desvarios do missivista são motivo de indignação para os usuários do HC, os quais, por longos anos, sofreram com o descaso e a incompetência de seus gestores, e agora, como num passe de mágica, veem todos os problemas do Hospital resolvidos – como acintosamente descreve o vice-reitor em seu artigo.

É um evidente excesso de ufanismo fora de moda, pois a população brasileira não mais aceita conviver com a “ilha da fantasia” criada pelos que estão no poder. A realidade do HC, sabe-se bem, é outra, totalmente oposta a esses devaneios que buscam inutilmente iludir os seus usuários e a população, em geral.

Imagine o HC, durante anos de desleixo e incompetência gerencial, sofrendo com a destruição sistemática (talvez premeditada para depois privatizá-lo) de sua infraestrutura, com a redução de pessoal e o sucateamento de seus equipamentos (muito deles, quando novos, permaneceram por anos a fio dentro de caixotes). Imagine agora, em pouco mais de dois meses, ressurge das cinzas um “Novo Hospital” (das Clínicas), assim, num estalo de dedos, com todos os seus problemas crônicos resolvidos. Uma piada irresponsável e de mau gosto para os usuários daquele posto de atendimento, para os médicos que ali trabalham e para os estudantes que fazem seu aprimoramento prático nas dependências desse hospital escola.

O que preconiza o vice-reitor da UFPE, com seu “Novo Hospital”, fruto do contrato firmado pela Administração da UFPE com a EBSERH, de forma autoritária e antidemocrática, não é bem o que vem acontecendo em outras instituições que, há mais tempo, também cederam às pressões do governo federal. Do total de 47 Hospitais Universitários, 23 assinaram contrato com a EBSERH (24 ainda não têm contrato).

A situação mais emblemática é a da Universidade Federal do Piauí (UFPI), que em 8 de abril de 2013 repassou a administração de seu Hospital Universitário para a EBSERH. Denúncias fundamentadas levaram à abertura de inquérito civil público pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) do Ministério Público Federal (MPF). Através da nota técnica no 4.658, relativa à visita técnica realizada para subsidiar o inquérito, o procurador Federal dos Direitos do Cidadão, em oficio circular encaminhado às Procuradorias Regionais dos Direitos do Cidadão, em 21 de fevereiro de 2014, destaca “... o descalabro que se constitui a administração da EBSERH em um hospital universitário”.


Bem, é fácil verificar que a administração da EBSERH nos Hospitais Universitários pelo Brasil afora não tem sido a maravilha surrealista cantada na prosa ufanista do vice-reitor da UFPE. É claro que todos gostariam que fosse realidade esse “Novo Hospital” – mas com a EBSERH e com essa política de palavras vazias não dá para se ter esperanças!

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco

quinta-feira, 6 de março de 2014

Rober, a robô


Já meio contrariado pela demora no atendimento em uma loja de artigos de robótica, o sujeito perguntou com rudeza: - A senhorita pode me atender?

Um vendedor se aproximou e esclareceu: - Não, amigo! Ela é a Rober, uma robô feminino, e está desligada.

- Puxa vida! É perfeita, confunde mesmo!

- Sim, ela é o melhor e mais novo produto da mais alta tecnologia. É o que se tem de mais parecido com uma mulher de verdade, fisicamente e também no comportamento.

- Impressionante! Só agora notei esse “led” vermelho no pescoço, como se estivesse implantado na pele. Mas parece também uma gargantilha. Para que serve?

- Bem, primeiro, eu devo explicar o funcionamento completo desta maravilha. Ela trabalha em dois modos: bruto e normal.

- Como assim?

- Bem, no modo bruto, ela possui uma força descomunal. Pode demolir pisos e paredes, conserta defeitos em instalações hidráulicas, elétricas, de prédios, de automóveis, assim como faz muitos outros trabalhos pesados. É uma condição perigosa, pois ela pode levantar um carro de duas toneladas e arremessa-lo a dez metros de distância. Por isso, tão logo termine o serviço, seu modo deve ser mudado para a posição normal imediatamente, usando-se o controle remoto.

- E o “led”?

- Calma! Primeiro, vamos a mais informações. A Rober pode cuidar de sua casa, como uma arrumadeira e faxineira permanente. Qualquer sujeira é detectada pelos seus sensores e imediatamente limpa. Também é configurada para reconhecer a organização dos objetos da residência, do escritório, da clínica, e mantê-los da mesma forma, até que receba a informação de uma alteração desejada ou de um novo objeto incluído na área determinada. Mas se uma camisa está suja no chão, por exemplo, ela percebe, pela detecção do suor, e leva para lavar e passar no horário programado, para que se tenha economia de energia elétrica e produtos de limpeza.

- Inacreditável! E ela fala?

- Muito pouco! Se não lhe fizerem perguntas, ela apenas cumprimenta ou pergunta com carinho. Bom-dia, Amor! Durma bem, Querido! Quer uma bebida para relaxar? Que tal um pouquinho de amor?

- Você não vai me dizer que ela...

- Sim, a Rober é uma amante incomparável. Várias modelos de raras belezas serviram como padrões para a sua linha de produção, com cópia fiel de suas alturas, proporções, cor e textura da pele. Ela realiza todos os sonhos dos homens, aliás, o que não é muito difícil. Realizar os sonhos das mulheres é bem mais complexo, não é?

- Ééééé! E ela... faz tudo?

- Sim, e até simula com perfeição!

- Então, ela é de verdade!

- E também é uma cozinheira incrível.

- Mas o que ela cozinha?

- Qualquer coisa que o dono queira. Desde um ovo frito, até os pratos mais sofisticados. E se algum que você queira não estiver em seu rol de habilidades, você pode baixar o arquivo na Internet e copiar para a sua memória.

- Mas e aquele “led” que você não me explicou ainda?

- Bem! Ele é uma luz de alerta.

- Alerta do quê?

- Então, é assim, quando o “led” acender, você deve correr. Mas correr muito mesmo, pois ela entrou no modo bruto, não vai permitir a mudança para o modo normal e está com TPM.


Sérgio Antunes de Freitas

Setor elétrico: o sujo falando do mal lavado



Apesar de seu caráter essencial, o setor elétrico brasileiro não tem sido levado em conta com a relevância necessária para atender os interesses estratégicos da população. Ele tem tido um papel que o situa no jogo da disputa eleitoral. Ou seja, vivemos a partidarização energética, que ficou evidenciada desde o inicio do século XXI. E isso não tem contribuído para encontrar os caminhos da segurança energética, da modicidade tarifária, da qualidade dos serviços oferecidos, e ainda mais, a diminuição dos impactos socioambientais na escolha das fontes energéticas.

O processo de reestruturação do setor elétrico iniciado em 1995, com a “meia sola” do que ficou conhecido como o "Novo Modelo do Setor Elétrico" a partir da lei 10.848 de março de 2004, que instituiu as atuais bases do mercado de energia brasileiro, desestruturou por completo o sistema existente, principalmente com a introdução de um modelo mercantil. A partir de então a energia elétrica é tratada e sujeita as leis de mercado. Não muito diferente de um pacote de bolacha comprado no mercadinho da esquina.

O que poderia parecer uma vantagem comparativa devido à ¾ da energia elétrica produzida no país ser gerada nas hidroelétricas (o restante com as termoelétricas, mais caras), acabou se tornando um grande motivo de preocupação. Em particular, devido às mudanças climáticas e seus efeitos decorrentes, que cada dia mais assola o planeta Terra. Por exemplo, o calor extremo no Sudeste e a seca no Nordeste brasileiro. O que está acontecendo agora, portanto, é exatamente o que os cientistas do clima preveem que começará a ocorrer com mais frequência daqui para frente.

Virou moda, ainda mais em ano eleitoral, falar mal da política energética do governo federal. Em parte com toda razão, visto as consequências nefastas do modelo mercantil adotado, e que resultou em tarifas escandalosamente altas, uma sofrível qualidade no abastecimento com as interrupções frequentes no fornecimento de energia elétrica, os apagões (na geração e transmissão) e os apaguinhos (na distribuição). Além dos riscos cada vez maiores do racionamento.

Todavia o que chama a atenção, e nos indigna, é a critica partir de setores, de pessoas, que até “ontem” estavam à frente da gestão da política energética, e que foram e são os responsáveis, coadjuvantes diretos juntamente com os gestores atuais, dos descaminhos e descalabros, que tem levado a tanta insegurança e  problemas para o presente e futuro do Brasil.

Nas criticas atuais que partem de candidatos presidenciais (ora aliados, ora opositores), políticos oportunistas, “especialistas” de plantão (cada partido político tem o seu), de jornalistas setoriais, de consultoras, lemos, vemos e ouvimos uma ladainha que se repete insistentemente, não importa que o que se defende hoje, se ataque amanhã. São visões de curto prazo, imediatistas, cujo objetivo é o desgaste político. Não existe compromisso com as ideias, com a coerência, enfim com o país. É um vale-tudo onde a busca pelo poder político é o que interessa, mesmo que para isso o país afunde.

O importante é mimar quem está no poder. E ai, se incluem os “lobistas”, fabricantes de equipamentos que querem “vender” sua tecnologia, as grandes construtoras que querem construir mais e mais usinas, escritórios de engenharia. Aqui é o interesse econômico que prevalece ao interesse nacional.

O que é comum na política energética do governo anterior e do vigente é a falta de planejamento (em uns mais e outros menos), de investimentos necessários à modernização do sistema de transmissão e distribuição, a valorização dos técnicos e funcionários do setor, a falta de apoio na diversificação da matriz elétrica incorporando novas fontes renováveis de energia (sol, vento), uma política agressiva de conservação e uso eficiente de energia em conjunto com uma política industrial destinada a equipamentos mais eficientes, e uma falta de transparência crônica aliada a decisões antidemocráticas do Conselho Nacional de Política Energética. Que dê Conselho não tem nada, simplesmente aprova as propostas do poder executivo. E sem dúvida urge desbancar grupos políticos conservadores, retrógrados e com uma ética questionável no manejo da coisa pública instalados há décadas no Ministério de Minas e Energia.

A receita para sair do “buraco negro” em que se meteu o setor elétrico brasileiro requer vontade política. Mas que lamentavelmente nem o atual governo tem, e nem os anteriores tiveram. Portanto cabe a nós, o povo, decidir o que realmente queremos para nosso país. O resto são churumelas.


Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco