sexta-feira, 25 de março de 2016

O autogolpe de Dilma


O que já era dramático virou trágico. A política brasileira virou um ringue e a presidente Dilma que, durante meses vinha resistindo aos rounds, de repente, cansada ou distraída, tomou uma direta no queixo, quase mordeu a língua e perdeu por nocaute técnico.

O PT vinha alertando o povo quanto à iminência de um golpe e o golpe realmente ocorreu, mas foi detonado, não pela oposição, e sim, pela própria presidente, ao nomear seu Pigmalião Lula como chefe da Casa Civil, numa tentativa de protegê-lo contra a prisão, como todos puderam comprovar ao ouvir uma conversa sua com o ex-presidente, grampeada por um juiz inédito na história jurídica brasileira. Ao defender e querer salvar Lula, de quem vinha marcando distância desde sua posse com um Ministério neoliberal, Dilma acabou se molhando e pode até ser processada. Foi um verdadeiro autogolpe ou autogol.

A ação foi dolosa e durante a encenação desse autogolpe seus inimigos aproveitaram para montar o impeachment, programado para o mês de abril. Como as manifestações da sexta-feira foram bem menores que as do domingo treze, as portas do Planalto vão se abrir para o vice-presidente, exceto se o TSE decidir impugnar a vitória da chapa Dilma-Temer e provocar novas eleições, nas quais Lula não poderá provavelmente participar. Seria uma sábia maneira de se evitar confrontos.

O clima é de caos porque se a causa da crise é corrupção, os autores do impeachment também são corruptos. Se os evangélicos conseguissem levar Cristo para Brasília e ele adaptasse sua célebre frase ao momento atual, dizendo « quem nunca roubou atire a primeira pedra », essa história ia acabar numa abençoada pizza, com todos se desculpando, se abraçando e prometendo uma alternância na sangria das estatais e do dinheiro público. Maluf, Cunha e Lula iriam até Curitiba propor uma boa comissão ao Moro, porque afinal ninguém é de ferro. E acabaria essa história de delações e processos seletivos – « se os tucanos fizeram por que nós não podemos? »

E o Brasil nisso tudo, enlameado e ridicularizado aqui fora no Exterior, tem algum peso? Não, não tem. Releiam todo noticiário publicado desde meados de 2014, quando começou essa história da Lava Jato, e procurem se algum desses tristes personagens se preocupou com isso. Não, absolutamente. Eles estão preocupados com seus mandatos, suas contas bancárias em paraísos fiscais, suas comissões ou com a manutenção de seus partidos no poder.

Existe algum combate ideológico nesse caos? É o combate da esquerda contra a direita, como dizem os petistas? Nada disso, o que se vê é um mero incentivo ao culto pessoal, mesmo porque, é bom lembrar, o governo Dilma se elegeu sem ter apresentado um programa. E por quê? Porque se os discursos e a publicidade lançada pelo marqueteiro João Santana insinuavam um governo social, a candidata Dilma sabia que faria um governo neoliberal.

O governo de Dilma Roussef vai chegando ao fim e arrastando consigo a possibilidade de Lula retornar em 2018. Uma tragédia política para Lula, que chegara a obter o respeito e os elogios de toda a imprensa internacional e mesmo de chefes de Estado como do presidente Obama dos Estados Unidos. Uma tragédia também para a ex-resistente à ditadura militar transformada em tecnocrata e retirada do anonimato por Lula, para exercer o cargo de presidente, no qual não soube usar sua formação de economista, enfrentou uma crise internacional com a queda do valor das matérias primas de exportação, viu seu partido e seu Pigmalião envolvidos no maior processo de corrupção da história brasileira e não soube também avaliar o tamanho da crise política na qual foi envolvida e acabou por se envolver.

De nada adianta o PT e seus filiados clamarem serem vítimas de um « golpe » porque ninguém mais neles acredita, muito menos a imprensa internacional depois das delações e revelações feitas pelo processo Lava Jato, dando conta de uma corrupção desenfreada dentro da Petrobrás. A reeleição de Dilma foi fatal para Lula e o PT, por terem utilizado de todos os artifícios de uma propaganda enganosa e de uma campanha insidiosa de destruição dos adversários, técnica que se voltou contra eles já na nomeação dos ministros e desde o primeiro dia de posse de Dilma, quando se confirmou a trapaça eleitoral. Levy e Kátia Abreu, lembram-se? Esse já era um golpe nos eleitores.

Tragédia igualmente para todos simpatizantes do lulismo e do petismo, quando começou a serem reveladas as mazelas praticadas por petistas e membros da base aliada do governo com empreiteiros ainda antes da compra da refinaria de Pasadena. Os primeiros desacertos da política do governo Dilma mostraram o despreparo total do PT no poder, por não ter criado bases e infraestruturas já desde o primeiro governo de Lula. E por não ter se preocupado em dar cultura política e ideológica aos seus seguidores.

Não houve um plano econômico consequente quando a distribuição da Bolsa Família permitiu fossem retirados da pobreza cerca de vinte ou trinta milhões de pessoas, utilizou-se apenas o mecanismo do consumismo e seu valor eleitoreiro, na crença de ser uma fórmula eterna, sustentada igualmente pela elevação progressiva do salário mínimo. O país não se industrializou, muito ao contrário, acreditou na perenidade nada ecológica do petróleo e projetava o futuro no pré-sal, embora as constantes punções da base aliada na Petrobrás acabassem por comprometer a própria Petrobras ao ocorrer a queda do preço do petróleo e das matérias primas.

Embora alguns representantes da esquerda venham acusando a direita, como nos esquemas clássicos do passado, como responsáveis pelas quedas de Lula e Dilma, nada disso tem base concreta e nada disso corresponde à verdade. Seria mais verdadeiro se falar em conservadores e aproveitadores, porque o governo simplesmente não é (não era) de esquerda, embora se vestisse e quisesse falar como de esquerda. O PT embora não tivesse sabido criar uma imprensa própria, capaz de concorrer com a mídia já existente, criara em torno de si uma muralha de blogueiros, encarregados de sua segurança e publicidade, na verdade repetidores da direção do partido. Essa proteção excessiva acabou por criar sua própria perda, por ter impedido aos seus próprios dirigentes uma visão geral do descontentamento popular.

Lula e Dilma falharam na política agrícola, não protegeram a saúde dos brasileiros dos produtos químicos das grandes multinacionais dos agrotóxicos. Cederam à Monsanto, na questão dos OGM (organismos geneticamente modificados), mesmo quando os europeus preferiam receber produtos agrícolas brasileiros não geneticamente modificados. Lula e Dilma não realizaram a esperada e sonhada Reforma Agrária, desde os anos 60 quando se projetavam as reformas de base. Não protegeram as populações indígenas contra os posseiros e deixaram a porta aberta para a revisão das reservas indígenas. A política do desenvolvimentismo fechou os olhos à necessidade do desenvolvimento sustentável, permitindo a continuação dos desmatamentos criminosos na Amazônia, massacres de indígenas ou desalojamentos de populações como os consequentes à Barragem de Belo Monte.

Embora tendo aberto maiores oportunidades com as cotas universitárias para afrodescendentes e indígenas, não há ao mesmo tempo uma proteção real para eles, vítimas constantes de massacres por policiais e posseiros. Um recente relatório da ONU sobre tortura no Brasil confirma ser a tortura um método aplicado em todas as delegacias e prisões e a realidade de que os negros são sempre considerados e presos ou abatidos como culpados sem qualquer investigação prévia.
A educação no Brasil não conseguiu se reerguer dos baixos níveis deixados pela ditadura militar, o setor da saúde pouco evoluiu.

A esquerda brasileira, que será estigmatizada pelos desvios dos governos petistas, embora minoritária, não vinha aprovando e não aprova as iniciativas do governo Dilma. Dentro do próprio PT, um setor também minoritário, não esconde suas divergências.

É falso falar-se em golpe, em luta entre direita e esquerda, trata-se de uma mera luta de uns, pelo poder, enquanto outros usam de tudo para permanecer no poder.

Rui Martins, do Direto da Redação

Começo, meio e fim de um partido, de um ex-presidente e de...


O começo. Na década de 90, a inflação chega a 80% a.m. O Brasil estava pra explodir. Em 1993, Fernando Henrique Cardoso é nomeado ministro da Fazenda no governo de Itamar Franco. FHC implanta o Plano Real, desindexa a economia, cria a Lei de Responsabilidade Fiscal, privatiza empresas, controla a inflação, ajusta e estabiliza a economia, dentre tantas medidas importantes. Resgata o miserável da miserabilidade e a Nação volta a brilhar. FHC elegeu-se presidente e continua seu trabalho. Esta a herança maldita herdada por Lula.

A primeira eleição de Luis Inácio Lula da Silva, em outubro de 2002, foi conclamada na do fiel defensor dos trabalhadores. Crítico ferrenho de oligarquias de governos anteriores, empenhou-se  em derrotá-los, venceu. A “ética” foi o seu pilar de sustentação, convocando o povo a abandonar o medo e alimentar a esperança. Entramos na era do Lulinha paz e amor!

Na época, escrevi uma crônica 'Quem é realmente Lula?' De condição simples e humilde, ele chegou ao mais alto cargo do País. O 39º presidente, um barulhento ex-líder sindical, com 57 anos, inexperiente, mudará a história do Brasil? Reconheci uma pequena possibilidade do seu governo dar certo. Todavia, como ele tinha tendência ao comunismo, só aprendeu a atirar pedra em tudo e todos, inexperiente, nunca confiei e acreditei na capacidade dele e do seu partido.  

Lula e o PT, embalados no “nasce uma nova estrela”, na herança "bendita" de FHC, países ricos como a China, com crescimento exponencial, sedenta de commodities, mergulham no Brasil comprando tudo e investindo num país em desenvolvimento como o nosso. Ele e seus companheiros se lambuzam na corrupção, e em quatro anos de governo Lula são apresentados 101 casos de corrupção. Mesmo assim, como o mundo e o Brasil cresciam, ele foi reeleito.

O meio. Mas o mais grave aconteceu em 2008, quando o Brasil conheceu o esquema de compra de apoio político no Congresso, conhecido como Mensalão, denunciado pelo deputado Roberto Jefferson. Naquele dia, a casa de poder e corrupção do PT começou a balançar!

Lula, com índice de aprovação alto no fim do seu governo, nos empurra goela abaixo e elege a primeira mulher presidente do Brasil, Dilma Rousseff. Passamos a viver a era do “País rico é país sem pobreza”!

Apesar do sucesso do governo Lula, muitos sabiam que foi construído em terra fofa, sem sustentabilidade! Lula, como excelente populista, preocupou-se apenas no aqui e agora - a longo prazo, nada! Dilma, querendo ser mais populista que o seu criador, alimentou ainda mais aquele leão faminto, o governo - gasto público, descontrole da inflação, baixa produtividade... A casa começou a cair.

O fim. Nestes 13 anos e três meses de governo populista, irresponsável, corrupto e incompetente de Lula, especialmente o de Dilma, o Brasil tá em frangalhos, de cabeça pra baixo, nada funciona bem; inflação em alta, economia em recessão, desemprego, aumento das desigualdades, desesperança! O dinheiro acabou! Por isso que o "Socialismo" só dura enquanto dura o dinheiro dos outros!

O sonho virou pesadelo, PTistas, sobretudo depois que Sérgio Moro e sua equipe entraram em ação! E não foi conspiração americana, golpe da elite, imprensa ou dos militares! Vocês se autodestruíram com a ganância de poder, idealismo, corrupção, incompetência! São desprezíveis na arte de administrar, seja lá o que for. Porque a prova é evidente, onde vocês metem a mão... Buuum!...

Não são poucos os pecados de Lula. Acusado de corrupção, tráfico de influência, falsidade ideológica, de beneficiar-se do dinheiro sujo do Petrolão. Ele sofreu um inédito pedido de prisão preventiva! Depondo na Polícia Federal, ironizou e desafiou a Justiça, cuspiu na Constituição - que líder é esse?!
           
O governo Dilma definha e caminha para um fim melancólico. Maioria dos PTistas e aliados está sendo julgada e presa. O recado foi dado no último domingo, 13/3/16, mais de sete milhões de pessoas foram às ruas protestar contra um partido, um ex-presidente e uma presidente que conseguiram o que parecia impossível - destruir o Brasil.
           
Notório que eles não compreenderam nada diante das manifestações de domingo, quando a nação pedia a impeachment de Dilma, fora PT e Lula! Ontem, a desnorteada Presidente nomeou o ex-presidente Lula ministro! Ufa!...
           
Definitivamente pode-se fechar o caixão e enterrar o PT e toda equipe. 

Sérgio Belleza, administrador, empresário, consultor e autor dos livros, Caminhado com Walkyria e Ascensão e Queda de um Império Econômico.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A Síndrome do Cachorro



Uma das diferenças entre os povos desenvolvidos e os ainda bárbaros pode ser avaliada pela quantidade de pessoas que sofrem da Síndrome do Cachorro.

Quando se abre uma porta, o primeiro a querer sair é o cachorro. Ele enfia a cara como em uma greta ainda em abertura e só refuga se levar uma arranhada no focinho, pelas garras do gato com frio que quer entrar.

As pessoas com raciocínio cartesiano, para as quais não existem outras variáveis de análise que não sejam os vetores físicos e matemáticos, além das necessidades fisiológicas, sofrem dessa espécie de patologia.

Na fila do elevador, é mais do que lógico esperar as pessoas saírem, para depois entrar. É como trocar uma lâmpada! Em primeiro lugar, se tira a lâmpada queimada, para depois colocar a nova. Eureca!
Mas as pessoas devem pensar que o elevador vai subir sem esperá-las e não voltar mais. Então, peitam quem está saindo, pisam no pé do ascensorista, engancham o cabo torto do guarda-chuva na bolsa da madame mal-educada. E haja palavrão!

Mas não é só nos ambientes populares que isso acontece.

Após o pouso, quando é aberta a porta do avião, os “senhores passageiros” querem ser os primeiros a sair, para ficar duas horas esperando as malas na esteira. Manda a boa etiqueta, para quem não sabe, que a preferência se dá pela ordem da numeração das cadeiras, ou seja, sai primeiro quem está na frente!

É como a água da garrafa! Em primeiro, saem os goles que estão na frente. Depois, sai a água do fundo, às vezes com depósito de sujeira. Se o depósito quiser sair ao mesmo tempo, é necessário chacoalhar o recipiente, Raramente isso acontece com o avião. Mas acontece, para o pavor de muitos como eu!

Essa síndrome é facilmente percebida no trânsito de veículos. Todos eles estão andando no limite da velocidade máxima, mas mantendo um ritmo de segurança. Aí, aparece o alfaiate alucinado, costurando para todos os lados. Se estivesse fazendo uma cueca, ninguém vestiria! Quando chega ao sinal fechado, todos param, mas só ele fica com a cara de macaco depressivo.

Também nas ruas e avenidas, encontramos aqueles que mais sofrem desse mal, os motoqueiros. Para eles, a doença pode ser mortal. Ou, com sorte, só dolorida.

Um amigo, quando era dessa cepa, me contou que esqueceu a perna no para-choque de um jipe, com sua moto em alta velocidade. Ele usou o verbo esquecer, porque, na hora que sentiu a perna subir, achou que só iria reencontrá-la em algum local de Achados & Perdidos. “Legal, Mano? Apareceu alguma perna cabeluda, com uns vinte e seis anos de idade e um calombo na canela?”

Uma variante dessa moléstia para o público infantil é a Síndrome do Gato, cuja teoria é: se passou a cabeça, passa o resto.

Geralmente, acomete os baixinhos nos corredores de feiras livres e assemelhados pelo acúmulo de gente. O baixinho taca o chifre na frente e vai dando ombradas nas pernas dos outros.

E os pais tentando não perder de vista o possuído!

O diagnóstico também pode ser feito nas portas giratórias dos bancos, aquelas geringonças que instalaram para dificultar a entrada de clientes, digo, dos ladrões. Já não chega ter que tirar chave, celular, carteira com moedas, cinto com metal, tornozelo mecânico, restaurações dentárias com liga de ouro, pino na bacia etc., ainda somos empurrados por uma pessoa forte e apressadinha do outro lado do cilindro mágico.

Outro dia, dei quatro voltas para entrar e cinco para sair da agência. Zonzo, me apoiei no coldre do agente de segurança. Sem problemas, eles não portam armas mesmo!
Lembrando, ainda existem os fura-filas!

A consequência de todo esse mal é que, quando estamos no meio da manada em estouro, acabamos por somatizar essa síndrome.

E salve-se quem puder!

Sérgio Antunes de Freitas




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Carnaval... A melhor festa dentro da maior festa do mundo


A origem do Carnaval antecede à Era Cristã. Tudo começou na Itália, com o nome de Saturnálias - em homenagem a Saturno, o Tem. Com a expansão do Império Romano, as festas foram disseminadas - com bacanais inimagináveis! Será por isso que a festa expandiu-se tanto?

No dialeto milanês, os italianos adotaram a palavra 'Carnavale' que significa 'o tempo que se tira o uso da carne', numa espécie de abuso da carne antes da Quaresma. E o tempo passou...

Conta a 'lenda' que no início do século 20, próximo ao domingo anterior à Quaresma, o baiano 'entrudava' - eram brincadeiras pesadas, onde se jogava balde de água, frutas, areia, etc. Cordões, blocos e a sociedade mais despojada concentravam-se na Baixa dos Sapateiros para fazer manifestações. Os negros, mascarados, molhavam quem estivesse nas ruas, invadiam casas e todos entravam na folia. Na metade do século 18, o Entrudo passou a ser reprimido pela polícia. Nesta época, o Carnaval começou a se dividir em  Carnaval de Salão e  de Rua - dando no que deu!

Na década de 50 que o Carnaval começa a tomar corpo de festa popular; com foliões brincando e se divertindo atrás de carros de som - agora a 'lenda' toma forma real quando uma caminhonete fubica, com alguns aparelhos de som, sai pelas ruas tocando, sem que a população entendesse muito bem o que era aquilo! Dois caras supercriativos, Adolfo Antônio (Dodô) e Osmar Macedo (Osmar), proprietários de uma oficina, decoraram uma Ford 1929, montaram uma fonte ligada a uma corrente de bateria que alimentava alguns alto-falantes, e a dupla de "malucos" saiu no domingo de Carnaval pelas ruas de Salvador arrastando milhares de pessoas. Uma placa identificava o Ford: 'Dupla Elétrica'! Um dia depois, eles convidaram um amigo pra se associar à dupla, surgindo assim o "Trio Elétrico"!  Aí a coisa começou a pegar...

A cada ano que passava, a festa crescia, a população estremecia e a prefeitura começou a promover concursos de rainha, de trios e de outras agremiações. O trio passou a caracterizar o Carnaval da Bahia . Ano após ano, os trios foram se profissionalizando, e até a metade dos anos 70 embora já enormes eram ainda instrumentais.  

Em 1975, Caetano cantou 'Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu' e o Brasil ficou atento àquele tipo de música.  Moraes Moreira, em 1978, canta pela primeira vez em cima de um trio elétrico a música 'Assim pintou Moçambique' - o povo foi à loucura, iniciando-se uma nova fase do Carnaval baiano.  

Mas foi em 1985 que os baianos novamente se surpreenderam com uma nova modalidade de som, ritmo e dança: o Fricote de Luís Caldas fez balançar uma multidão - surgindo aí o Axé. O ritmo alucinante rapidamente se espalhou pelo Brasil. E o Carnaval baiano, que era basicamente de baianos, passou a ser de brasileiros e estrangeiros. A partir de então, novos artistas, músicas, blocos e ritmos surgiram para 'infernizar mais ainda esses festeiros e loucos baianos'. 

O Carnaval da Bahia transformou-se em um espaço múltiplo: hoje reina na terra do Axé, a maior democracia musical do planeta, a diversidade abraçou a música afro, o samba-reggae, pagode, forró, brega, rock, sertanejo, quaisquer tipo de música são tocadas nas ruas de Salvador - não existe nada semelhante no mundo! 

O conjunto da obra, tendo o trio elétrico como ator principal, passou das ruas para os blocos, dos blocos para os camarotes, são adaptações necessárias à renovação, e a criatividade vem dos pés das mulheres - antes era tênis - hoje elas usam plataformas, a elegância predomina, como diz meu amigo, Clínico Bastos.
                       
 Sérgio Belleza, administrador, empresário, consultor e autor dos livros, Caminhado com Walkyria e Ascensão e Queda de um Império Econômico.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Conversa Alheia



Todos condenam aqueles que ouvem as conversas alheias!

Mas não sabem que muitos desses curiosos são, na verdade, vítimas dos conversadores sem coração.

A vítima clássica é o ascensorista que, muitas vezes, fica sem saber o desfecho de um caso de suspense, porque, no clímax, quem conta a história desce do veículo.

Eu fui uma dessas vítimas, ainda que involuntariamente.

Estava me abrigando da chuva, embaixo de uma marquise pública, quando chegou um sujeito já falando ao celular. Dizia:

- Sim, o Auro, a Cristina, o Pedro, o Donizete...
(Deve ser um grupo de amigos, talvez na combinação de um encontro – pensei.)

- Hoje de manhã, eu estive com o Marcos, o Silveirinha e o Glauco. Até falamos sobre a Maria da Penha!
(Reunião de trabalho?)

- Estavam juntos, o Ari, o Meirinho e, como é mesmo o nome dele? Ah, o Ribamar!
(Tá bom, mas o que vocês vão fazer?)

- Exatamente! E também com o Levi, a Abigail, o Clóvis, Marzagão, aquela turma, sabe?
(Pombas! Esse sujeito conhece todo mundo do universo!)

- Também, também, o Tonico e o …
(Tinoco...)

- … Andrelino.
(Errei!)

- Tem também o Cosme eu o …
(Nessa, eu não caio de novo!)

- … o Damião. Lembra dos dois baixinhos que não se largavam?
(Não é o meu dia!)
- E o Deuclídio?
(Ôpa! Esse eu conheço. Não deve existir dois Deuclídios no Brasil!)

- Morreu do quê?
(Pombas! Lá vai minha chance de descobrir a conversa!)

- Não. Ninguém me avisou e olha que eu estive com a Jurandi, o Fausto, a Naiara e a Toninha na semana passada.
(Bem, o de cujus pode ser um mote para eu perguntar ao conversador sobre o falecimento do amigo em comum e puxar conversa, para descobrir do que se trata!)

- Claro, claro! O Antônio Pedro, a Fátima e a Marieusa.
( Esse sujeito vai quebrar as próprias finanças com essa conversa de meia hora ao celular)

- Ah! E o Tertuliano!
(Já ia esquecendo o Terto, heim?)

- O Genaro, o Leco e a Terezinha.
(Eles devem ser gestores da lista telefônica.)

- É só falar com o Miziara, que ele entra em contato com a Ceci, a Verusca, a Manuela e o Tarcísio.

De repente, a chuva amainou e o sujeito saiu correndo para o estacionamento. Sem pode correr atrás dele, eu fiquei sem saber o teor da interlocução.

Um desconhecido, que também estava passando o sufoco da curiosidade, virou-se para mim e disse com um olhar de cumplicidade:

- Ele estava brincado de multidão, né?


Sérgio Antunes de Freitas

domingo, 10 de janeiro de 2016

Receitas da Vó Virgilina

Pintura: Túlio Dias  (http://tuliodiasartes.blogspot.com.br)

No fogão, a avó querida,
Empurrando mais um tição,
Contava-nos sobre a vida,
Sempre com uma lição.

“Para a comida salgada,
De açúcar, uma pitada.
Para os doces em geral,
Uma pitada de sal.”

Da negra panela surgia
O cheiro do requeijão,
Da pamonha, a apologia
Do milho, arroz e feijão.

Em sua rude linguagem,
Recheada de poemas,
Ensinava a fazer o bem,
Mesmo nas coisas pequenas

Dizia que o bom tempero,
Na verdade, é a alegria.
Já nos versos, de doce esmero,
A rima é o sal da poesia.


Sérgio Antunes de Freitas