quinta-feira, 31 de julho de 2014

A França contra o banco suíço UBS


Por que o governo não exige o repatriamento da centena de bilhões de dólares de brasileiros na Suíça?

Os suíços são comprovadamente um povo honesto. Mas seus banqueiros não são! Enquanto não existia a União Europeia, os bancos suíços, situados no meio da Europa, aspiravam impunemente o dinheiro dos países vizinhos, como o da França. Era o dinheiro destinado aos impostos de renda que os mais abastados desviavam para uma conta secreta suíça. Os bancos suíços eram cúmplices da evasão fiscal nos países europeus sem qualquer represália.

Isso começou em 1934, quando a Suíça, geralmente governada pelos banqueiros, sentindo o risco de uma guerra e a necessidade dos ricos guardarem seus bens, criou o segredo bancário. A novidade atraiu principalmente o capital dos judeus perseguidos pelos nazistas. A maioria deles morreu no Holocausto e o dinheiro ficou rendendo nos cofres dos bancos suíços, até estourar o escândalo da apropriação dessas contas pelos bancos, nos anos 90.

E ficou-se sabendo que filhos ou netos dos depositantes nos bancos suíços, ao tentarem reaver os bens depositados por seus pais ou avós, eram surpreendidos com a escandalosa exigência de apresentarem um atestado de óbito de Auschwitz ou de outro campo de concentração.

O banco UBS, considerado um dos primeiros bancos suíços, tinha comprado dos nazistas os bens imóveis dos judeus de Berlim, deixados vazios ao serem enviados aos campos de concentração. Quando estourou o escândalo das contas dos judeus nos cofres suíços, o banco UBS começou a destruir os documentos dessas compras, mas um guarda-noturno salvou-os em sacolas de supermercados e mostrou-os à imprensa.

Em lugar da justiça suíça processar o banco UBS, abriu processo contra o guarda-noturno que fugiu para os EUA e se tornou o primeiro refugiado suíço nos Estados Unidos com green card concedido pelo Congresso americano e pessoalmente pelo então presidente Bill Clinton. Pouca gente tinha coragem de dizer, mas nos meus artigos para o jornal português Público, do qual era correspondente, sempre qualifiquei a apropriação das contas dos judeus como roubo.

Houve um processo, os bancos suíços tiveram de pagar vultosas indenizações e a imagem dos bancos suíços e da própria Suíça saiu desgastada.

A história poderia parar por aí, mas continuou e assumiu feições ainda mais graves.

Dez anos depois das contas dos judeus, o segredo bancário suíço voltou à atualidade quando alguns informáticos de bancos suíços venderam para a Alemanha e a França alguns CDs contendo milhares de nomes de possuidores de contas secretas, onde estavam milhões e milhões de euros roubados ao fisco alemão e francês. Quase ao mesmo tempo, os Estados Unidos exigiram da Suíça e dos bancos suíços os nomes dos americanos com conta secreta.

A questão envolveu a Suíça, e seus deputados e senadores foram chamados a votar, se os bancos suíços deveriam ou não ceder à exigência americana, numa espécie de traição aos seus clientes. Porém, a Suíça não tinha escapatória, ou isso ou teria seus bancos proibidos nos EUA, com consequências funestas na praça financeira suíça. Milionários americanos, que ocultavam milhões de dólares do fisco americano, espumavam de raiva, pois sabiam ter de afrontar multas enormes e mesmo o risco de prisão por ocultarem suas fortunas com declarações de impostos mentirosas.

Porém, nem todos os sonegadores americanos, franceses e americanos, tinham tomado a iniciativa, por eles próprios, de desviarem parte de seus rendimentos para os cofres secretos suíços. A maioria foi induzida a isso por funcionários dos bancos suíços, que lhes acenavam com a tentação de usarem o dinheiro destinado aos impostos. Aproveitavam-se de competições hípicas, de golfe, ou de tênis, para contatar os milionários e lhes convencer a abrirem contas secretas num banco suíço, como o UBS, que cuidaria de desviá-las para as Ilhas Caimãs ou bancos off shore.

Por isso, os bancos suíços estão sendo processados nos EUA e em países da União Europeia. E agora é a justiça francesa que abre um processo contra o banco UBS e pede como caução a soma de um 1,1 bilhão de euros para começar o procedimento. O banco julga a soma exorbitante, mas a adoção pela França dos valores elevados, aplicados pela justiça americana, irá, sem dúvida, acabar com a estratégia dos banqueiros suíços de purgar o erário público dos países vizinhos.

E o Brasil teria alguma coisa a aprender com a França, Alemanha, EUA, em matéria de luta contra a evasão fiscal?

Sim e poderia ganhar muito, mas muito mesmo. As contas secretas dos milionários brasileiros vão além dos 100 bilhões de dólares e o Brasil poderia exigir da Suíça, e dos bancos suíços, o pagamento dos impostos de renda devidos por essas fortunas ocultas (medida mais moderada) ou o repatriamento dessas fortunas (medida mais radical).

Porém, o que impede o Brasil de ter uma legislação tão severa como a dos EUA, da Alemanha, ou da França, em matéria de impostos devidos ao fisco? Legislação que não pode ser chamada de legislação de esquerda. Aparentemente é o rabo curto nessa questão, tanto dos legisladores da oposição como da situação ou mesmo de gente mais importante. Não fosse isso, há muito tempo, algum deputado ou senador já teria proposto um acordo bilateral rigoroso com a Suíça proibindo aos bancos suíços incentivarem a evasão fiscal. Consta que muitos milionários podem entregar, mesmo no Brasil, a soma a ser desviada para a Suíça sem qualquer empecilho ou controle.

Assim, se hoje a União Europeia e os EUA fazem os bancos suíços pagarem multas vultosas por incentivarem o roubo pela evasão fiscal, continuam sem controle algum os países africanos, asiáticos e latino-americanos, entre eles, o Brasil. Quem teria coragem de legislar a esse respeito e ter de repatriar suas contas secretas para o Brasil?
Já que vai haver eleições, seria uma boa decisão os candidatos incluírem nos seus programas o repatriamento das contas secretas de brasileiros na Suíça e nos bancos off shore. Mas quem tem coragem para isso?

Rui Martins, do Direto da Redação

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Pernambuco e os conflitos socioambientais


Em Pernambuco, o mais mesquinho dos egoísmos é como o governo tem tratado mal a questão ambiental e descuidado da qualidade de vida de sua população, pois não protege a natureza e nem respeita as pessoas. Aqui impera o racismo ambiental.

O crédito público, associado às isenções e aos incentivos fiscais e financeiros, é arma poderosa que poderia ser usada para induzir um novo tipo de comportamento, exigindo integral e verdadeira responsabilidade social das empresas que viessem a se instalar no Estado. Quase a metade do crédito, todo de longo prazo e módicos juros, vem de bancos públicos muitas vezes avalizados pelo governo estadual. Logo, se o governo quisesse, outra forma de desenvolvimento (humano e social) seria possível: bastava induzir boas práticas através de sua força econômica, mudando os incentivos.

Ao invés disso, o governo estadual é o maior promotor de conflitos socioambientais, como nas remoções forçadas dos moradores para as obras da Copa, provocando também degradação ambiental. Merece também destaque a violência praticada pela empresa pública Suape contra os moradores nativos do território abrangido pelo Complexo Industrial Portuário de Suape (CIPS), e o desmatamento local de Mata Atlântica, manguezais e restingas. Somente para citar dois exemplos.

Os primeiros quatro anos de gestão do ex-governador, agora candidato presidencial, foi uma verdadeira catástrofe ambiental, se caracterizando como um governo autoritário, com promessas ilusórias, sem dialogo com os setores da população (quem participou dos seminários do Todos por Pernambuco sabe bem como funcionou), desconsiderando completamente as argumentações daqueles que ousaram apontar as mazelas que estavam ocorrendo em função do crescimento econômico desordenado e predatório, particularmente com relação ao território do CIPS. O autoritarismo aliado à completa falta de diálogo distanciou a gestão estadual dos movimentos sociais.

Foram inúmeras medidas desastrosas adotadas em nome do crescimento econômico, obedecendo a uma mentalidade que tem base na visão ultrapassada do “crescimento a qualquer preço”, ignorando a dimensão socioambiental. O mais lamentável foi o Projeto de Lei Ordinária no 1496/2010 (17 de março), enviado pelo executivo a Assembleia Legislativa (Alepe), referente à maior supressão de mata nativa já ocorrida em Pernambuco (e talvez no Nordeste). Inicialmente previa desmatar cerca de 1.076 hectares (equivalentes a 1.000 campos de futebol) de vegetação nativa em áreas de preservação permanente para obras de ampliação do CIPS. Após pressão e indignação popular, este montante foi reduzido para 691 ha (508 de mangue, 166 de restinga e 17 de Mata Atlântica).

A aprovação ocorreu mesmo com o parecer contrário da Comissão de Meio Ambiente da Alepe, que já questionava a supressão dos 88,7 ha de mangue e restingas, entre 2007 e 2008, cujas compensações ambientais não haviam sido cumpridas pela empresa Suape, que por sucessivos anos desdenhou do Ministério Público, assinando Termos de Ajustes de Condutas (TAC´s) que não foram respeitados.

Outro empreendimento, em nome de um crescimento econômico a cada dia mais questionado, que resultou na agressão ao que ainda resta da vegetação da Mata Atlântica (somente 3,5%), foi à implantação e pavimentação do contorno rodoviário do município do Cabo de Santo Agostinho, a chamada “Via Expressa”. Dos 11,8 ha suprimidos, 2,6 ha estão localizados em áreas de preservação permanente.

Outra decisão, também equivocada na área ambiental, que mostra claramente o inequívoco desprezo pelo meio ambiente e pelas pessoas, foi à opção por tornar Pernambuco um polo de termoelétricas consumidoras de combustíveis fosseis (o vilão do aquecimento global). A tentativa de trazer para o Estado a maior (e a mais poluente) termelétrica a óleo combustível do mundo, anunciada pomposamente, em julho de 2012, como Suape III (1.450 MW), foi rechaçada pela sociedade pernambucana. Se tal construção fosse realizada, em pleno funcionamento iria despejar, segundo cálculos preliminares, em torno de 20 mil toneladas dias de gás carbônico (CO2). Todavia, a termoelétrica Suape II (320 MW), construída para ser acionada apenas em situações de emergência, funciona diariamente. Ainda na área energética/ambiental, merece destaque o interesse do governador, agora presidenciável, pela vinda da usina nuclear, anunciada inicialmente para o município de Itacuruba, a 512 km de Recife, no sertão, às margens do Rio São Francisco. Com uma biografia dessas na área ambiental, no seu segundo mandato, o ex-governador tentou colorir de verde o seu governo. Para isso cooptou seu ex-adversário, candidato do PV a governador, oferecendo-lhe a recém-criada Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade.

Algumas ações foram possíveis, utilizando a figura pública do ex-secretário, que atuou e militou, até então, nas causas ambientais. Com o apoio intensivo da propaganda e do marketing político, foram divulgados alguns projetos nesta área. Foram criadas reservas de proteção permanente “de papel”, foi lançado o projeto Suape Sustentável (que até agora não disse para que veio), dentre algumas medidas de caráter midiático. Além disso, foram abertas algumas portas para a projeção a nível nacional e internacional da figura do governador como amigo da natureza, já que a Conferencia Rio+20 se aproximava e se tinha que fazer algo pela imagem do governo na área ambiental.

De 13 a 15 de abril de 2012, aconteceu no Recife uma reunião denominada “Pernambuco no Clima” com o patrocínio do Governo Estadual, da Prefeitura do Recife e da Companhia Hidroelétrica do Rio São Francisco (CHESF). Este evento, como anunciado pelos seus organizadores, foi uma reunião preparatória do Rio-Clima (The Rio Climate Challenge), que ocorreria paralelo a Conferencia Rio +20, no Rio de Janeiro. Nesta reunião, como atestou à relação de participantes, a sociedade civil organizada ficou de fora. Marcaram presença entidades e personalidades com fortes vínculos com o governo nas três esferas, além de personalidades e cientistas nacionais e internacionais que contribuíram para avalizar o aspecto técnico do referido encontro.

Para tornar Pernambuco uma das sedes dos jogos da Copa das Confederações, e da Copa do Mundo, não foram medidos esforços no comprometimento financeiro do Estado e na tomada de medidas socioambientais injustas. Segundo a Secretaria Geral da Presidência da República, 1.830 desapropriações ocorreram, sendo 1.538 residências e 292 imóveis comerciais, terrenos, para as obras ligadas a Copa do Mundo de 2014. A truculência das expulsões e as irrisórias indenizações caracterizaram este triste e inesquecível episodio imposto pelo governo do Estado. Somente a construção da Arena Pernambuco e da Cidade da Copa resultou no desmatamento de uma área considerável do fragmento da Mata Atlântica no município de São Lourenço da Mata, situado a 20 km de Recife. O projeto previsto da Cidade da Copa (não executado) abrangeu uma área de 239 ha para construção de todos os equipamentos (prédios residenciais e um hospital). A Arena, única construção existente no local, ocupou cerca de 40 ha desse total.

Hoje a situação não mudou. O que era já planejado na época se concretizou com o lançamento do ex-governador como candidato a presidente. A ex-senadora e ex-ministra do meio ambiente do presidente Lula foi incorporada na chapa que disputará as eleições de outubro próximo. Algo de um pragmatismo exemplar na política brasileira diante das diferenças abismais entre os pensamentos e as ações de ambos em suas respectivas vidas públicas. Mas a politicagem brasileira sempre nos reserva surpresas.

A Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade segue não mãos do partido Verde. E este tem demonstrado o quanto é utilizado, dirigindo uma secretaria de quinto escalão. Problemas ambientais gravíssimos existem em todas as regiões do Estado, e a SEMAS segue o seu caminho.


Apesar das recentes promessas, que não são poucas, a chapa da “nova política” , como se denominam seus integrantes, não é confiável na área ambiental. Mais recentemente demonstrou total desrespeito a inteligência alheia, quando no dia mundial do meio ambiente (5 de junho) a população foi convocada, pelo agora defensor da natureza, o ex-governador de pernambucano, a se manifestar através das redes sociais contra o “retrocesso ambiental” do governo federal. A convocação tinha sentido, mas não tinha quem a convocou.

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), Mestre em Ciências e Tecnologias Nucleares pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Doutor em Energética pela Universidade de Marselha/Comissariado de Energia Atômica (CEA), França. (heitorscalambrini@gmail.com)

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Futuro da Seleção Brasileira e do Brasil


Fiquei perplexo com a reconvocação de Dunga para a Seleção Brasileira! Depois da desclassificação humilhante do Brasil na Copa do Mundo 2014, os senhores feudais da CBF, Confederação Brasileira de Futebol, ou de Falcatruas, explicou ao povo brasileiro da necessidade de renovar. Renovar quer dizer mudar para melhor, modernizar, evoluir. Fiquei feliz e inseguro, porque quem conhece nosso Brasilzão, sabe muito bem como funcionam os “jogos” de interesses dos poderosos, corruptos, malandros!...  

O que poderia ser uma agradável surpresa virou tormento na minha mente! - Dunga? Não! Indaguei assustado! Percebi que a CBF não tá nem aí pra seleção, nem para a maior paixão do brasileiro! Vive num mundo à parte, coligada apenas com Ricardo Teixeira e interesses da FIFA! Porque a única preocupação dos cartolas é continuar no poder sem chamar muito a atenção, como é usual!

Fico imaginando Dunga como “novo símbolo” de renovação do futebol brasileiro! Não será deboche? Dunga não tem perfil renovador, muito menos competência para refazer ou reerguer uma seleção acomodada, viciada, pragmática! Não se pode pensar em um técnico que só lidere, seja rígido, dedicado! Para comandar uma grande empresa, é preciso um profissional extremamente capaz! Para comandar uma grande seleção, é preciso um técnico extremamente capaz! Ousado, inovador, criativo, vencedor, que saia das quatro linhas do gramado! Esta reengenharia inclui assessoria idônea, experiência, competência, valores humanos, estilo, capacitação, mente sã, receptiva, que acompanhe a evolução do mundo moderno, especialmente do futebol contemporâneo. 

A CBF vive buscando no passado solução para o presente, jamais para o futuro. De 1994 a 2018, sete copas, quatro treinadores. Parreira, Zagalo, Filipão, Parreira, Dunga, Filipão e Dunga! Um entra para corrigir o erro do outro! Dunga é chato, agressivo, paranoico, mal-educado; retranqueiro, cabeça-dura, inexperiente e certamente incapaz de reerguer a única seleção pentacampeã do mundo! Dunga tem como auxiliares um Gallo, um Taffarel e Gilmar; no comando geral, Marin, Nero e Teixeira bisbilhotando. Colocando todos num liquidificador, que bicho dá? Talvez dê “Zebra”! Vencerão.

A Seleção Brasileira perdeu dentro e fora do campo agora em 2014! Pelo visto, perderá por muitos anos! O futuro do Brasil continua em jogo, só em outubro ou novembro saberemos o final do campeonato! Quem vencerá? O Brasil dos falsos, maus, corruptos políticos que iludem, alimentando o povo com pão e circo, marcado pela incerteza e medo? Ou um Brasil bem administrado, criativo, moderno, tecnológico, necessário ao povo brasileiro? Precisamos acreditar e caminhar com todos aqueles que desejam realmente um país melhor, confiável, estável, seguro, forte, com infraestrutura, boas escolas e bons professores; sem violência, qualidade na saúde, emprego, menos impostos, encargos. Um estado eficiente, com políticas públicas bem definidas... Enfim, sermos um Brasil de Primeiro Mundo, um “grande país” e não um país grande.

O futuro presidente do Brasil deve ser um grande administrador-líder, competente, ético, que atenda as verdadeiras necessidades da Nação, não, e tão somente, os interesses do seu partido. Não podemos permitir que um país democrático como o nosso, que lutou contra a ditadura militar, recaia na agonia sofrível de um regime pseudossocialista, ou se torne uma “republiqueta comunista-chavista-bolivariana”, como tanto deseja o atual governo! Não podemos permitir que a “destruição” dos valores familiares e o incentivo ao ódio entre as classes no Brasil continuem. É preciso dar um basta em tudo isso!

Acredito num Brasil forte porque o é. Derrotamos uma ditadura militar, mandamos pra casa um presidente arrogante e prepotente, não será um partido qualquer que alterará os rumos da nossa democracia, estabilidade econômica, crescimento sustentável, valores familiares e classes sociais! Como disse, a Seleção Brasileira perdeu dentro e fora do campo. Rogo a Deus e ao povo brasileiro para o Brasil ganhar na “próxima partida”, nas urnas!

Sérgio Belleza é administrador, empresário, consultor e autor dos livros, Caminhado com Walkyria e Ascensão e Queda de um Império Econômico.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Setor elétrico: crise recorrente


Neste início de 2º semestre, o cenário do setor elétrico deixa claro, mais uma vez, os numerosos erros cometidos nos últimos anos, e que foram potencializados, apontando para uma urgente e indispensável transformação na estrutura de organização, de gestão e de planejamento do setor.

A tímida reforma ocorrida em 2004 não trouxe a pretendida resposta ao racionamento de 2001. Logo, o que se verifica atualmente tem a ver com o que não foi realizado no primeiro governo do presidente Lula: uma mudança no modelo mercantilista da geração, transmissão e distribuição de energia elétrica. De lá para cá, vivenciamos um setor estratégico do país com vários remendos.

Do lado da expansão, as opções se concentraram nos questionáveis mega-projetos hidroelétricos na região Amazônica; na ampliação do parque de usinas termoelétricas a combustíveis fósseis, caras e poluentes; e na reativação do programa nuclear brasileiro, com a construção de Angra 3 e da proposta de mais 4 usinas, mesmo frente ao amplo repúdio popular.

Como consequência dos equívocos, erros e mesmo incompetência técnica e gerencial, as tarifas estão estratosféricas e a qualidade dos serviços pífia. Mesmo a prometida redução de 20% nas tarifas de energia elétrica, através da estratégia armada pelo Ministério de Minas e Energia com a promulgação da MP 579/12 (convertida na Lei no 12.783, de 11 de janeiro de 2013), não terá praticamente qualquer efeito até o final deste ano.  Os aumentos médios nas contas de energia aos consumidores residenciais em 2014 devem ficar entre 16% e 17%, visto os aumentos já concedidos no 1º semestre; o que praticamente anula a redução do ano passado. E em 2015, de acordo com previsões de consultorias do ramo, será pior: o reajuste ficará entre 21% e 25%.

Aliada a tarifas caras, constata-se a flagrante deterioração na qualidade e riscos no abastecimento de energia elétrica.

Com o modelo hidro-térmico adotado, a dependência do comportamento hidrológico, cada vez mais influenciado pelas mudanças climáticas, tem sido utilizada como justificativa para o acionamento das usinas térmicas. Agora não mais em caráter emergencial, e sim permanente. E, como a energia gerada por tais usinas é bem mais cara que a hidroeletricidade, os custos são repassados ao consumidor e pagos em suas contas de luz. Além de embutidos em impostos para todos os contribuintes.

O custo do acionamento continuado das caríssimas termelétricas de reserva, desde 18/10/12, que chega a suprir cerca de 12,5% da carga total, chegará à estratosférica soma de R$ 50 bilhões no corrente ano (R$ 2,3 bilhões mensais), segundo estimativas preliminares. Esse cálculo considerou um custo médio de R$ 420/MWh. Agora, é só fazer a conta. Se o problema persistir por mais 12 meses, os custos chegarão a R$ 78 bilhões. E quem pagará a conta? Os mesmos, claro: nós, consumidores e contribuintes.

No aspecto ambiental, são catastróficas as opções adotadas pelo governo federal, que excluiu do processo decisório as organizações sociais, especialistas independentes e consumidores. O setor de energia no país, outrora lembrado por sua produção com baixa emissão de carbono, tem elevado substancialmente as emissões de gases de efeito estufa. Dados do Observatório do Clima revelam que o segmento foi responsável pela emissão de 436,7 milhões de toneladas de CO2 em 2012, aumento de 30% em relação as 335,7 milhões de toneladas emitidas em 2006.


O setor elétrico precisa de urgentes mudanças estruturais. Lamentavelmente, os candidatos presidenciais dos grandes partidos não nos oferecem qualquer perspectiva da necessária transformação. Além do anunciado “realinhamento das tarifas”, qual o plano, senhores?

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco

terça-feira, 22 de julho de 2014

Campanha do bilhão


Encerrado o prazo legal (em 05 de julho) para o registro das candidaturas ao pleito presidencial de 2014, onze candidatos se registraram junto ao Tribunal Superior Eleitoral. De acordo com os dados apresentados pelos partidos políticos, o gasto estimado com a campanha será próximo de R$ 1 bilhão de reais. Com nove concorrentes, a campanha presidencial de 2010 totalizou despesa de R$ 289,20 milhões (em valores da época).

Sabemos nós, moradores da ilha da fantasia chamada Brasil, que os valores oficiais apresentados estão longe de representarem o que realmente se gasta em uma campanha eleitoral. Nada se fala dos valores paralelos, o “caixa dois”, ou outro nome que se queira dar. Portanto, sem medo de errar, podemos multiplicar por três os gastos oficiais sugeridos para 2014. O que elevaria os gastos na campanha à Presidência da Republica deste ano para mais de três bilhões de reais. Numero impressionante por si só, mas quando se agregam os gastos das candidaturas a governador, deputados federais e estaduais pelo país afora, verifica-se uma deformação, pois as grandes somas em dinheiro envolvidas acabam anulando a vontade popular. Desta forma, o voto não representa mais o cidadão. É o poder econômico que elege para atender aos seus interesses mesquinhos.

O financiamento das campanhas no Brasil, ou seja, o modo como os partidos políticos custeiam suas campanhas eleitorais, segundo a legislação vigente, pode vir de recursos públicos e privados. Oficialmente, a forma de arrecadação e de aplicação dos recursos são submetidas a um complexo conjunto de regras que deveriam controlar, enquadrar e multar o candidato, sempre que houvesse abusos contra as regras eleitorais. Mas não servem para muita coisa. Regras podem ser boas quando cumpridas, no entanto, na ilha da fantasia, é tudo “faz de conta”. A fiscalização praticamente não existe. E quem deveria fazê-la “olha para o outro lado”. Uma vergonha.

Quanto à origem, os recursos destinados às campanhas eleitorais podem ser recursos próprios dos candidatos, doações de pessoas físicas, doações de pessoas jurídicas, doações de outros candidatos, de comitês financeiros ou partidos políticos, receitas decorrentes da comercialização de bens e serviços ou da promoção de eventos, bem como da aplicação financeira dos recursos de campanha.

O projeto Às Claras (http://www.asclaras.org.br/@index.php), atuando desde 2002, mostra que as eleições no país são “compradas” pelos grandes grupos econômicos, que se constituem na fonte mais importante de financiamento das campanhas. As empreiteiras dominam as doações. Para elas é um investimento com retorno certo. Segundo o Instituto Kellog para cada real doado a candidatos, as empresas obtêm R$ 8,50 em contratos públicos.

Os maiores financiadores de campanhas, não por acaso, são justamente aqueles com interesse em licitações de serviços públicos. As mais conhecidas no Brasil, por sua atuação no setor de construção civil, as chamadas “quatro irmãs” – Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez – são as maiores financiadoras das eleições. Alguma dúvida do por que estas empresas e suas terceirizadas dominam o cenário das obras publicas?

A farsa da democracia é construída desde a legislação eleitoral, que determina as regras do jogo, indo até o empresariado que financia as grandes campanhas eleitorais. Daí a necessária reforma política. Não se pode admitir que nosso país tenha “donos”. Obviamente uma reforma substantiva não ocorrerá com este Congresso Nacional. E talvez com nenhum outro, enquanto não alterarmos sua atual genética, moralmente corrompida.


Para quem ainda não desistiu, a participação é a pedra de toque para as mudanças que a maioria deseja para o país. Se discutirmos sobre as próximas eleições tanto quanto se discutiu sobre o acidente que tirou Neymar da seleção brasileira, com certeza estaremos no caminho para construir um país melhor para a maioria do seu povo.

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Copa e Ressonância


É uma maravilha observar os avanços da medicina nos últimos cinquenta anos, período que pudemos presenciar e usufruir desses benefícios.

Quem imaginaria que, de um tempo em que somente existiam radiografias em branco e preto, para ver o interior do corpo humano, passaríamos a ter cirurgias pouco invasivas, como as feitas com laparoscopia, tratamentos a lazer, tomografias computadorizadas e, ainda, os tratamentos com células-tronco, que enchem de esperança as famílias com pessoas que sofrem com doenças degenerativas, apesar dos obscurantistas contrários a isso.

Sob esse aspecto, estamos no futuro!

Mas, ainda, com algumas restrições ou desconfortos.

No dia do jogo do Brasil na Copa do Mundo, fui submetido a uma ressonância magnética de abdome total. Que nome bonito! Com e sem contraste. Mais bonito ainda!

Começou com a enfermeira, que iria espetar aquela agulha com o adaptador para injetar o contraste, procurando minha veia mais adequada.

Procurou, procurou, procurou e disse: - Ai, ai, ai!

Preocupado, alertei: - Quem deve dizer ai, ai, ai, aqui, sou eu. Essa fala é minha!

Parece que eu sabia o que iria acontecer. A moça me furou no pulso esquerdo. Empurrou, girou, cavucou com a agulha e eu quase chorei. Ardia, queimava, doía, até que ela resolveu procurar outro ponto.

Mas o orifício do pulso esquerdo continuou doendo. E era grande o buraco!

Recomendei a ela, na segunda tentativa: - Vai com calma, tranquila, com segurança. Não precisa de pressa. Eu estou OK, você está OK!

Fiz uma prece rápida para Santa Quitéria das Agulhas e a enfermeira conseguiu enfincar aquele trem em mim normalmente.

Em seguida, fui levado à sala da ressonância, deitei na maca, me amarraram e colocaram um abafador de ruídos nas minhas orelhas, pois o volume do som emitido pelo equipamento é muito alto.

Fui orientado para obedecer a um comando de voz: “respire fundo”; depois, “segure o ar nos pulmões”. Por fim, depois de uns quinze segundos, “pode relaxar”.

Meu primeiro medo foi que a moça da agulha fosse também a locutora. Se errasse de buraco para falar e esquecesse de me mandar respirar, já era!

Ou, se fosse uma gravação e tivesse um erro de arquivo, eu poderia ter uma apneia. Aí, caixão e vela preta!

Afora a preocupação, tudo ia bem, até que, de repente, senti que minha bunda estava grudada na maca. Sabem aquele mal estar de sentir a pele grudada e não pode desgrudar, em um sofá de plástico, por exemplo? Eu mexia com a musculatura, mas a pele não desgrudava. Agonia total!

Imaginei: se aquele jogador da seleção, o de glúteos grandes, fizer esse exame, vai precisar do resto do time para desgrudar a bunda dele da bancada.

E o orifício do pulso esquerdo continuava doendo. E eu sentia que o buraco era grande mesmo!

Apesar do abafador de som nos ouvidos, conhecido como “taporeia”, o barulho era alto.

- Segure o ar nos pulmões...e TÁ,´TÁ, TÁ,´TÁ, TÁ,´TÁ, TÁ,´TÁ...

- Segure o ar nos pulmões...e TÓIM, TÓIM, TÓIM, TÓIM, TÓIM, TÓIM, TÓIM, TÓIM, TÓIM, TÓIM...

- Segure o ar nos pulmões...e PÍ, PÍ, PÍ, PÍ, PÍ, PÍ, PÍ, PÍ, PÍ, PÍ, PÍ, PÍ...
E a coisa não terminava.

Demorava! Em um momento, achei que tudo era automático e eles haviam me esquecido e ido assistir ao jogo do Brasil. Nunca mais serei o mesmo – pensei.

Eis que a moça entra na sala para aplicar o contraste e diz: - Já está terminando. Só mais um pouquinho.

Perguntei: - Pelo menos o baile funk já acabou?

Não. Continuou mais um pouco, quase uma eternidade, até que, barulhos depois, ela voltou e disse: - Pronto, está terminado.

Eu agradeci: - Essa foi a melhor notícia que você me deu nos últimos sessenta anos!

Na verdade, o exame não causa nenhuma dor ou incômodo insuportável.

E, disso, tirei uma lição. Se um dia eu resolver me suicidar, jamais cortarei o pulso esquerdo.


Sérgio Antunes de Freitas