Há pedidos que não precisam ser
feitos, mas, se forem, serão atendidos da mesma forma.
Foi o caso do rogo de minha filha,
para eu assistir à cerimônia na qual ela receberia a carteira da Ordem dos
Advogados do Brasil.
Como eu não iria, se isso é o
coroamento de tantos anos de devoção? A minha, de tê-la educado. A dela, de ter
estudado com aplicação.
Se eu comparasse com a torcida pelo
time do coração, e nessa história também houve muita torcida, como eu iria
desligar a televisão justamente na hora dos jogadores receberem a taça de
campeão e darem a volta olímpica?
Já estava tudo acertado, contudo, no
dia anterior, ela ainda lembrou: - Pai, é amanhã, às onze horas, no auditório.
Não esquece!
Ainda complementou: - Eu vou cedinho
para o trabalho e, de lá, vou para a OAB, lá pelas dez horas, pois devo chegar
mais cedo, a pedido dos organizadores.
Tudo combinado. Havia apenas um
problema, eu estava sem carro.
Ora, depois de tantos investimentos
durante toda uma vida para obter esse laurel, o que é pagar um táxi, mesmo obrigado
a atravessar praticamente toda a cidade?
Havia também o problema de tempo, mas
esse eu equacionei, pedindo a dispensa do trabalho pela manhã.
E já que não iria trabalhar, levantei
da cama um pouco mais tarde.
Tomei um banho e um café demorados, me
lembrando dos detalhes da infância da minha advogada, dos momentos que trazem
saudades quase insuportáveis.
O orgulho de ver uma filha formada é
indescritível e a comoção ameaçava ficar incontrolável.
Como diz um amigo, com o avanço da
idade, a gente se emociona até ao assistir propaganda de margarina.
Voltei um pouco à normalidade, quando
vi meu filho em casa naquela hora, sem razão para isso. Ele me explicou que,
devido à greve de professores na faculdade, ficaria em casa pela manhã. Embora
ele apoie a greve, não havia programação prevista para o dia.
Ótimo! Assim, aproveitei o carro dele
para ir à cerimônia.
No horário planejado, coloquei o
melhor de meus poucos ternos. Escolhi a gravata que julgo a mais bonita, Conferi
se os sapatos estavam bem engraxados e as meias combinando com o conjunto.
Eu não sou vaidoso, mas me olhei umas
dez vezes ao espelho, para ver se eu estava realmente vestido como pai feliz.
Opa! Faltava o perfume. Só podia ser
aquele que mais gosto, o mais caro, que usei sem parcimônia.
Pronto! Eu estava bonito e cheiroso
como filho de barbeiro.
Às dez horas, saí pelas ruas, em
velocidade normal, curtindo a manhã, a vida, a vitória de minha filha. Tudo
brilhava!
Eu não sabia ao certo onde era o prédio
a que me dirigia, mas, pelo endereço, acertaria, como acertei. Meia hora
depois, eu estava em sua frente.
Entretanto, ainda havia um pequeno
problema: onde estacionar? Todas as vagas estavam ocupadas muito antes do local.
De repente, do lado oposto à porta da
entidade, começou a sair um carro. Que dia de sorte!
Isso nunca aconteceu comigo, pelo que
me lembro. A vida é muito bela, pensei em êxtase.
Parei um pouco antes do veículo que
saía, dando sinal de seta, para garantir meu acesso à vaga.
Na demora dos procedimentos do outro
condutor, meu telefone tocou e eu nem tive dúvida em atender, embora,
teoricamente, estivesse dirigindo, o que torna o ato irregular.
Era a minha querida filhinha do
coração, comunicando: - Pai, nem sai de casa, por que eu errei o dia da
cerimônia.
Sérgio Antunes de Freitas




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