quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Bandeiras tarifárias: ataque ao bolso do consumidor


Mesmo com um sofrível serviço elétrico prestado aos consumidores brasileiros, segundo indicadores de desempenho da própria Agencia Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), as companhias distribuidoras seguem recebendo as benesses de um capitalismo sem risco.

Nos últimos anos as empresas dependeram de repasses do Tesouro Nacional e de aumentos tarifários bem acima dos índices inflacionários, o que lhes garantiu lucros líquidos e dividendos excepcionais aos seus acionistas, quando comparados com a realidade do país. Tudo para garantir o malfadado equilíbrio econômico-financeiro das empresas – como rezam os “contratos de privatização”. Em nome deste artifício contratual, as empresas têm garantido até a possibilidade de reajustes tarifários extraordinários. E é exatamente isso, segundo a Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia Elétrica (ABRADEE), que será solicitado a ANEEL pelas empresas no início de 2015, justificado pela “conjuntura do setor elétrico”.

O que se verifica na pratica é que, mesmo com a qualidade dos serviços prestados se deteriorando, os reajustes nas tarifas aumentam seus valores abusivos, beneficiando empresas ineficientes que deveriam ser cobradas e punidas, e não premiadas.

Mas a tragédia que se abate sobre o consumidor de energia elétrica não acaba ai. A partir de janeiro, haverá uma cobrança adicional nas tarifas, com a implantação das bandeiras tarifárias. Então, além dos reajustes tarifários anuais ordinários (na data da privatização das empresas), cujas estimativas para 2015 apontam percentuais que podem chegar a ser de 3 a 5 vezes superiores à inflação, e da possibilidade de um reajuste extraordinário, se somarão os acréscimos das bandeiras tarifárias.

Este mecanismo indicará como está a situação do parque gerador de energia elétrica do País, utilizando as cores verde, amarela e vermelha. A bandeira verde indicará condições favoráveis de geração, e a tarifa não sofrerá nenhum acréscimo. A bandeira amarela indicará que as condições de geração são menos favoráveis, e a tarifa sofrerá acréscimo de R$ 1,50 para cada 100 quilowatt-hora (kWh) consumidos. A bandeira vermelha indicará as condições mais custosas de geração (uso das usinas térmicas), e a tarifa sofrerá acréscimo de R$ 3,00 para cada 100 kWh consumidos. A ANEEL divulgará mês a mês as bandeiras que estarão em vigor em cada um dos subsistemas que compõem o Sistema Interligado Nacional (SIN).

Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o consumo médio brasileiro é de 163 kWh/ residência, e a tarifa média para o consumidor residencial é de R$ 400,00/ MWh. Assim, uma conta de R$ 65,20 na bandeira verde subiria para R$ 67,65, ao passar para a bandeira amarela; e para R$ 70,09, no caso da bandeira vermelha. Nestes cálculos não estão sendo levados em conta os encargos e impostos incidentes na tarifa elétrica.

Os valores parecem pouco significativos individualmente, mas considerando que existem 75,2 milhões de unidades consumidoras (sob o regime de bandeiras tarifárias) no País, em um mês de bandeira vermelha, haverá para os cofres das empresas, segundo cálculos da própria ANEEL, o recolhimento de 800 milhões de reais a mais em todo o Brasil, e de 400 milhões de reais em um mês de bandeira amarela. Em 2014, considerando o sistema de bandeiras tarifárias, a bandeira amarela seria acionada apenas no mês de janeiro, e no restante do ano teria vigorado a bandeira vermelha para todos os subsistemas.

O mecanismo das bandeiras tarifárias funcionará efetivamente para arrecadar e aumentar o caixa das distribuidoras. Diferente do que alegam os promotores desta proposta que dizem que o sistema teria por objetivo estimular o consumo consciente. Ou seja, levar o consumidor a reduzir o consumo quando o custo do kWh for maior.

As bandeiras tarifárias estavam previstas para entrar em vigor em janeiro de 2014, mas foi postergada para janeiro de 2015. Mesmo após 12 meses de adiamento, nada foi feito para tornar esta proposta mais conhecida pela população, e mesmo discutida pela sociedade.

Sabendo-se que o setor elétrico tem como ingredientes um modelo mercantil, uma privatização “sem riscos”, dirigentes incompetentes, decisões autoritárias e antidemocráticas, além da notória falta de transparência – o resultado no bolso do consumidor não poderia ser diferente. 

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Aurículas Protrusas


Duílio nasceu com as orelhas apresentando protrusão maior do que o normal. Não chegava a ser orelhas de abano nem motivo forte para apelidos. Apenas um tio costumava dizer que o garoto dispunha de duas orelhas com uma cabeça entre elas. Mas a brincadeira ficava limitada aos risos da família e até do próprio alvo da chacota.

Era de bom comportamento, contudo vivia se metendo nas reinações, como se dizia antigamente, ou nas “aprontações”, como se diz hoje, dos amigos, primos e irmãos.

Assim, não chegava a levar surras de cinta de sua mãe. Apenas uns puxões de orelha poucas vezes ao mês.

Também na escola, mantinha o padrão. Não fazia coisas graves, a ponto de levar admoestações escritas ou suspensões. Mas, como na época não havia restrições aos leves castigos físicos escolares, sempre levava uns puxões de orelha das professoras e, certa vez, da diretora. Ele sempre disse que não conseguia esquecer a sensação das unhas grandes e vermelhas da mulher, cravando as cartilagens posteriores de seu orelhame, sem piedade.

O bedel também usava do mesmo expediente, só com mais virilidade, suspendendo o menino até que ele ficasse nas pontas dos pés.

Uma aurícula se posicionava na esquerda superior e os olhos caiam para a direita inferior, olhando para baixo, com um ar de vesguice. E os braços balançando ao léu.

Na verdade, o Duílio não era muito estimado pela sorte!

Perto de sua casa, havia outra, com farto quintal, onde morava um homem bom. Todo ano, o homem permitia que o garoto pulasse o muro, para colher e se lambuzar com algumas mangas, daquelas perfeitas, carnudas, doces, sonhos de moleques e pássaros livres.

Mesmo que o dono não estivesse por lá no momento do banquete, usando da confiança, o Duílio se fartava e, depois, passava por lá, para agradecer o velho amigo.

Entretanto, o homem vendeu sua casa e poucos ficaram sabendo. Assim, na época das mangas de um ano, Duílio, já quase um homem feito, foi surpreendido pela polícia, chamada pelo novo proprietário do imóvel, por estar comendo suas manguinhas, encostado no tronco da frutífera.

Todos para a delegacia de polícia!

O dono da casa, indignado, repetia: - Pede que eu dou, mas não rouba, não!

Esclarecido o caso, o delegado perguntou ao proprietário se queria que lavrasse uma ocorrência.

O homem, buscando mostrar seu espírito bom, mas justo, respondeu: - Não! Dá só um puxão na orelha dele e vamos embora.

Esse fascínio que suas orelhas exerciam sobre os dedos alheios era incompreensível, mas real, principalmente quando cometia seus pequenos erros.

Já adulto, em uma cidade diferente da sua, pediu informações para um desconhecido, a fim de saber se estava na direção certa de seu destino. Quando a pessoa disse que ele estava errado, palavra forte, levou as mãos em conchas à cabeça, para proteger as orelhas.

Em outra oportunidade, mais uma vez, voltou à delegacia de polícia, por conta de um mal entendido. Foi acusado de agressão a animal, por ter pisado no rabo de um gato do açougueiro. Quase foi cortado pela peixeira ensanguentada do carniceiro.

E uma terceira, por ter derrubado a bicicleta mal estacionada pela freira do internato das moças.

Nessa última ocasião, o delegado já foi acusando: - Você aqui de novo, Duílio, me dando trabalho? Mas não se emenda mesmo, né?

Algumas horas depois, o Duílio contou que, após esses comentários, o Delegado juntou suas orelhas com as mãos e torceu, como se fossem laranjas maduras.

E complementou: - Ele torceu tanto, que não deve ter sobrado nem uma gota de caldo ou sumo! Eu sentia dois bagaços pendurados na mandíbula.

Por isso, assim como os auxiliares de pedreiro, que carregam sacos de cimento na cabeça, com todas as consequências do produto ressecante derramado pelo corpo, foi batizado com o apelido de “Duílio oreia seca”.


Sérgio Antunes de Freitas

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Por que sempre à custa dos trabalhadores?


Analistas e articulistas econômicos tem apontado como principais desafios do segundo mandato presidencial arrumar as contas públicas e retomar o crescimento econômico.

Ajustar as contas públicas – na lógica econômica predominante – significa cortar gastos. Contrário ao discurso crítico da ortodoxia econômica na época da eleição, a presidente eleita acabou cedendo ao mercado, e nomeou para ministro da Fazenda um alto executivo do sistema bancário, ex-secretário de Tesouro no primeiro governo Lula, chamado na época de “Levy mãos de tesoura”.

Como parte das medidas da nova equipe econômica para cortar gastos e promover um ajuste fiscal, a “novidade” no final do 1o mandato do governo Dilma, em pleno período de festas natalinas, foram as medidas que atingiram as regras de acesso a vários benefícios sociais.

No início do primeiro mandato do governo Lula, eleito como esperança contra a continuidade do governo neoliberal do Partido da Social Democracia Brasileiro (PSDB), foi promulgada, como sua primeira medida, a reforma da previdência que atingiu diretamente os trabalhadores do setor público.

Em ambos os casos, as medidas evidenciaram que os governos eleitos pelo Partido dos Trabalhadores (PT) não estavam (e não estão) assim tão preocupados com os trabalhadores. Estas medidas, tomadas em períodos distintos, com grande simbolismo, foram justificadas para corrigir distorções, e realizar ajustes necessários para a retomada do crescimento econômico (para beneficiar a quem?). Mas na verdade não se pode admitir que a filosofia de Robin Hood seja materializada às avessas, tirando dos mais pobres para manter os privilégios dos mais ricos.

No Brasil existem inegavelmente importantes e indesejáveis distorções. Necessidades de ajustes e correções estão presentes nos diferentes aspectos da vida nacional, em particular no vergonhoso fosso que divide ricos e pobres. Mais do que meras distorções, são injustiças que deixam o país entre aqueles de maior desigualdade social no mundo.

E ai cabe uma pergunta que não quer calar. Serão tais medidas, como cortar gastos à custa da classe trabalhadora, que na prática significam reduzir direitos, que conduzirão o país a uma maior justiça social? A uma maior igualdade na distribuição de renda?

Obviamente que não. Fica claro que existe em tais medidas um viés claro de penalizar o trabalho e a classe trabalhadora. Daí o fato de tais medidas serem sempre bem recebidas pelos empresários e criticadas pelos trabalhadores.

Interpretadas como medidas fiscais, visando economizar para os cofres públicos, as medidas provisórias no 664 e 665, publicadas no dia 30/12/14 com a justificativa de economizar R$ 18 bilhões em 2015 (o equivalente a cerca de 70% do gasto com o Bolsa Família em 2014), modificam as regras dos critérios de acesso a benefícios sociais como o seguro-desemprego, auxílio-doença, pensão por morte, abono salarial e o seguro defeso para os pescadores. Estes benefícios previdenciários são todos de interesse direto dos pobres.

Além destas primeiras medidas, outras estão a caminho, e também afetarão a classe trabalhadora. A correção da tabela do imposto de renda é uma delas. O reajuste de 6,5% para o ano-calendário de 2015, aprovado pelo Congresso Nacional, não foi sancionado neste final de 2014. Será então mantida a correção de 4,5%, a mesma que vigorou nos últimos quatro anos. O reajuste ajudaria a reduzir a defasagem, favorecendo o contribuinte. Para o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Sindifisco), o prejuízo do trabalhador, acumulado desde 1996, chega a 68%. A não aprovação do reajuste representa uma elevação indireta da carga tributária – um claro arrocho do governo sobre os ganhos dos assalariados.

Por outro lado, medidas que poderiam aumentar a arrecadação não são tomadas. Uma delas é o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), que somente a União tem competência para instituir (art. 153, inciso VII da Constituição Federal), o qual, apesar de previsto, ainda não foi regulamentado. Esta espécie de imposto sobre o patrimônio mudaria a lógica da estrutura tributária, pois hoje quem paga mais é o pequeno trabalhador assalariado. O imposto de renda sobre o trabalho faz crescer a arrecadação, e os benefícios não são sentidos. Os ricos pagam relativamente menos que os assalariados, as grandes fortunas são taxadas com valores irrisórios – muito diferente do que acontece em outras partes do mundo.

Outro aspecto que pune o trabalhador – sempre que se fala em ajustar a economia – é a dívida pública. Irregularidades apontadas nunca foram investigadas, apesar de um preceito constitucional viabilizar a realização de uma auditoria da dívida. O que falta é vontade e decisão política.

Portanto, as primeiras medidas do “novo governo” Dilma são o oposto do discurso, cujo slogan afirma “nenhum direito a menos, nenhum passo atrás”. E não adianta tergiversar afirmando que não se trata de retirar direitos e, sim, de corrigir “distorções”. Então, a classe trabalhadora deve agir se quer tornar este um país de cidadãos mais conscientes de seus direitos e obrigações, respeitados pelo governo.

A esperança apregoada para conquistar mais quatro anos de governo necessita, sim, ser convertida em participação com pressão popular. Afinal, os políticos são eleitos por nós, e cabe a nós influir nos seus mandatos. Acompanhar como vota o político no parlamento, escrevendo para ele, exigindo que cumpra as promessas feitas. Aí sim poderemos começar a pensar em construir um país melhor. A esperança da mudança está em nossas mãos. A classe trabalhadora precisa agir participando – caso contrário, não haverá salvação.

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade federal de Pernambuco

Natal, muita festa e pouca lembrança de Jesus!


No sexto mês, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré. Foi à procura de uma virgem, chamada Maria, prometida a um homem chamado José. O anjo disse: “Alegre-se, cheia de graça! O Senhor está convosco!” Maria ficou preocupada. Continuou o anjo: “Não tenha medo, porque encontrastes graça diante de Deus. Grávida, terás um filho, e darais a ele o nome de Jesus. Ele será grande, e será chamado Filho do Altíssimo.” Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se não vivo com nenhum homem?” O anjo respondeu: “O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra. Lembre-se que para Deus nada é impossível!” Maria disse: “Eis a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra”. E o anjo a deixou.

Desde o século IV, os cristãos festejam o Natal, ou nascimento de Jesus Cristo, no dia 25 de dezembro. Portanto, é uma data extremamente expressiva, simbólica, para ser lembrado o Filho de Deus, saudá-lo com entusiasmo, pedir e agradecer por tudo e todos. É tempo de repensar valores, refletir sobre a vida, a sua, a de seus parentes, amigos, conhecidos e também dos desconhecidos. De fato, às vezes nos sentimos tristes, saudosos pelos que já partiram, a recordação dói, todavia, é importante a fé, acreditar nas palavras de Jesus, quando diz que quem Nele crê jamais morrerá; assim, a esperança nos fará sorrir, fluindo a criança que existe em cada um de nós, porque é dia de contemplação ao Filho do Altíssimo, Aquele que morreu para nos salvar, é momento único, doce e cheio de valores espirituais, religiosos, e todos devemos unidos adorar ao Nosso Senhor Jesus Cristo no dia da Ceia de Natal.

Natal é noite cristã, onde o encontro fraterno entre familiares e amigos é indispensavel, a alegria invade nosso coração, trazendo confraternização, harmonia, paz, esperança, fé, e muito amor. Por isso o Natal é dia de união, devemos rogar ao Senhor para que os raios da Sua luz iluminem nosso coração, massageando nossos anseios, decepções, dúvidas, medo, porque os problemas, estresse do dia a dia, exijem tanto esforço, que nos deixam cada dia mais apreensivos. Na verdade, também é tempo de refazer planos, pensar no passado, presente - especialmente no futuro -, reconsiderar os erros, equívocos, para que seguindo na estrada da vida,  possamos encontrar a tão sonhada felicidade.

Infelizmente, o mundo contemporâneo modernizou-se demais, e  tem nos mostrado coisas não tão boas! O Natal não é mais um estado de espírito, de reflexão, de elevação ao Filho de Deus! Não é mais um momento para apreciar a verdadeira luz do bem, paz, benevolência, clemência, do real espírito natalino! O Natal perdeu o brilho de ser uma noite de confraternização, fé, esperança, amor, de comemoração pelo dia de nascimento e adoração ao Filho do Altíssimo, passando a ser apenas e tão somente uma data “festiva e contemplativa” para troca de presentes, brincar com Papai Noel, especialmente, conversar, comer, brindar e beber até se esbanjar!...

Neste Natal, farei como nos anos passados - aprendi ainda criancinha, e nunca esqueci -  no dia 25 de dezembro, na hora da ceia, junto com meus parentes e amigos, recordar o que Jesus Cristo disse  “onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, Eu estarei”. Assim, oraremos, agradeceremos e pediremos muito a Jesus Cristo por todos; Ele que viveu nesta Terra como homem, derramou seu sangue por nós, cantaremos parabéns pra Ele, trocaremos presentes com os convidados para ceia, beberemos e comeremos com mais tranquilidade, sorridente, alegre, feliz, certo do dever comprido...

Jesus abençoe a todos, Feliz Natal e um próspero Ano Novo.

Sérgio Belleza é administrador, empresário, consultor e autor dos livros, Caminhado com Walkyria e Ascensão e Queda de um Império Econômico.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Surrealismo Real


A Tentação de Santo Antônio. Salvador Dalí.

Segundo a corrente de arte conhecida por surrealismo, a manifestação artística deve ser absolutamente livre, inclusive livre da razão. Por isso, é inspirada nos sonhos, no trabalho de nosso inconsciente, no bom humor, em particular naquele conhecido como “non sense”.

Dessa forma, o surrealismo tem uma forte e indiscutível vinculação com a nossa realidade, ainda que virtual, ou seja, não é tão surreal assim. Vemos e vivemos, de fato, nossos sonhos. E até reagimos, a depender dos sentimentos que eles nos provocam nas horas do merecido descanso físico.

Estudiosos afirmam que o sono tem quatro fases e que os sonhos ocorrem na quarta fase, a mais profunda.

Contudo, logo na primeira fase, quando estamos nos afastando do estado de vigília, já acontecem pensamentos aparentemente desconexos, com fragmentos de memória relativa à realidade ou a outros sonhos.

A lógica fica parcialmente ou totalmente alijada da brincadeira.

Aí, podemos ter sonhos bons, neutros ou pesadelos.

Uma das formas de se ter pesadelo é comer uma suculenta rabada uns quinze minutos antes de dormir. A mulher costuma sonhar que ficou tão gorda e, por isso, seu namorado incompreensivo a abandona no altar. O homem sonha que está grávido de um pesado sapo daqueles de ferro, que seguram portas de casas de fazenda, para o vento não fechar.

Na maioria, esses sonhos ou pré-sonhos são neutros ou levemente incômodos.
Dia desses, sonhei com o Flávio, mas não era um dos meus conhecidos.

De repente, sumiu o acento do nome do Flávio e ele começou a cair para frente. Eu corri e fiz outro acento com a caneta esferográfica. Ele se estabilizou, silencioso. Mas, dali a pouco, o acento girou e passou de grave a agudo! E olha o Flávio caindo de costas.

Acordei cansado de tanto segurar aquele corpo gordo e procurar a caneta, que insistia em cair dentro de um balão volumétrico de laboratório de química!

Outro dia, no meio de uma partida de futebol onírica, em que eu jogava de atacante, apareceu um zagueiro enorme, no molde dos titulares de time da terceira divisão, que tem por gosto jogar os adversários contra o travessão do seu próprio gol. Ele veio embalado em minha direção e eu corria feito a mentira. E já nem estava com a bola, mas ele não desviava. Acho que ele queria me intimidar esportivamente! Acordei procurando o creme de arnica!

Houve também o devaneio em que uma simpática professorinha me pediu para ajudá-la a conter um garotinho da creche, impossível de ser dominado pela disciplina convencional.

Ele vivia enfiando o dedo na orelha das outras crianças e não parava, segundo a tia. Um terror para os coleguinhas!

Peguei o danadinho no colo, para que cessassem suas ações, enquanto tentaria alterar sua atenção para qualquer outra coisa.

Mas ele começou a enfiar seus dedinhos nas minhas orelhas. E no meu nariz!

E na minha boca! Parecia que tinha três mãos e dezoito dedos!

E eu é que não conseguia mudar minha atenção.

A alternativa foi acordar e festejar o fato de que, pelo menos, exatamente aquela peste não existia.

Há também os sonhos bons, nos quais recebemos notícias alvissareiras, resolvemos nossos problemas, ganhamos na loteria, mas, inversamente, o pesadelo acontece quando acordamos.

Nesse contexto, é perfeitamente possível compreender o porquê dos relógios derretidos, das borboletas no lugar das velas do navio, ou no lugar das hélices dos moinhos de vento, dos elefantes com pernas finas, da gema do ovo como o sol, dos abstratos com formas humanas, nas telas de Salvador Dali.


Sérgio Antunes de Freitas

Crise hídrica? A Sabesp vai muito bem, obrigado!


O que acontece com o Estado de São Paulo na questão da água é um exemplo do que pode acontecer em outros estados e cidades brasileiras, segundo dados recentes publicados pela ANA (Agência Nacional de Águas). Portanto, aprender e tirar lições deste episódio poderá ajudar gestores públicos e a sociedade a não repetir os erros que foram cometidos, e conviver melhor com uma situação que veio para ficar.

A crise hídrica, como ficou conhecida, não ocorreu por uma única causa, ou por um único erro cometido, nem tampouco pela falta de chuvas – mesmo considerando que esta seca é uma das piores dos últimos 84 anos. Na verdade foi um conjunto de fatores que levou a maior cidade brasileira, sua região metropolitana e várias cidades importantes do interior do Estado a sofrerem o desabastecimento de água.

A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), empresa que administra a coleta, o tratamento, a distribuição de água, e também o tratamento dos esgotos, é uma das maiores empresas de saneamento do mundo, e uma das mais preparadas do Brasil – com um corpo técnico altamente qualificado, e dispondo de uma boa infraestrutura. Assim pode-se afirmar sem dúvida que a causa principal de tamanha incompetência foi a sua administração voltada ao mercado, voltada ao lucro, que trata a água, um bem essencial à vida, como uma mera mercadoria.

Em 1994, a Sabesp se tornou uma empresa de capital misto, com a justificativa de que vendendo parte de suas ações conseguiria mais recursos financeiros para investir nos sistemas de abastecimento de água e de saneamento. Depois de 20 anos, o controle acionário se encontra nas mãos do Estado, que detém 50,3% das ações (metade negociada na BMF/ Bovespa, e a outra metade na Bolsa de NY), ficando os 49,7% restantes com investidores brasileiros (25,5%) e estrangeiros (24,2%).

A Sabesp é a empresa outorgada para utilizar e gerir o Sistema Alto Tietê, Guarapiranga e Cantareira, destinando em tempos normais 33 m³/s para Região Metropolitana de SP. Com a persistência da falta de chuvas e clima adverso, foi obrigada a reduzir pela metade a captação (pouco mais de 16 m³/s), apesar de fazê-lo tardiamente. Assim, o que era considerado um risco remoto tornou-se uma grande incerteza. A situação chegou a um ponto tal de dramaticidade que foi perdido o controle do sistema hídrico e, agora, além da captação do volume morto dos reservatórios, em curto prazo, a população fica na dependência das chuvas.

Em 2012, em documento elaborado pela própria Sabesp para a Comissão de Valores dos EUA, era admitido que pudesse ocorrer diminuição das receitas da empresa, devido a condições climáticas adversas. Assim sendo seria obrigada a captar água de outras fontes para suprir a demanda de seus usuários. Portanto, se conhecia e se antevia uma situação que acabou acontecendo. Porém nada foi feito pela Sabesp para diminuir este risco previsível.

Por outro lado, a gestão da crise não visou resolver os problemas da população, mas sim apenas amenizar a responsabilidade da própria Sabesp, blindando o governo do Estado, cujo mandatário estava em plena campanha eleitoral para sua reeleição. Em nenhum momento a gestão da Sabesp ou o governo do Estado admitiram a gravidade da situação. Muito menos a necessidade do racionamento, da diminuição da vazão, sendo ainda negadas pelas autoridades paulistas as interrupções que se tornaram cada vez mais constantes no fornecimento da água. Por isso, o que mais abalou a credibilidade do governo foi a divulgação pela imprensa de uma gravação onde a presidente da Sabesp admitia que uma “orientação superior” impediu, durante a campanha eleitoral, que a empresa tornasse pública a real situação hídrica do Estado.

Todavia, mesmo com a tragédia anunciada, penalizando a população, a empresa e seus acionistas vão muito bem. Basta acompanhar os lucros extraordinários nos relatórios de administração dos últimos anos, que geraram dividendos generosos para os acionistas da Sabesp, ao passo que o investimento necessário não acompanhou a mesma intensidade dos lucros obtidos pela empresa.


Esta situação por que passa a população paulista e paulistana poderá se estender a outras regiões do país nos próximos anos, caso persistam a má gestão, o desperdício e a devastação de nossas florestas. É um alerta à questão da privatização dos nossos bens naturais, em particular da gestão da água, do seu controle e distribuição. Daí a premente e essencial participação da sociedade nas políticas públicas para que a gestão das águas alcance resultados positivos, e não simplesmente siga a lógica da maximização dos lucros.

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco