quarta-feira, 27 de maio de 2015

Maioridade penal, 18 ou 16 anos, verdades e mentiras


Um repórter de uma rede de televisão aborda Paulo Coelho, que chegava de Genebra, Suíça, onde mora há anos, no Aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro: – Paulo, vejo que você tá muito feliz. – Uma das minhas maiores alegrias é quando o avião pousa na minha Cidade Maravilhosa, diz ele sorridente. – Então por que não mora aqui?, questiona o entrevistador. Diz Paulo Coelho com olhar sereno: – Não!... Infelizmente o Brasil deve ser um dos únicos países no mundo onde se tem medo de criança! Medo das crianças? Imagine dos jovens delinquentes!

A redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, proposta que retornou à Câmara dos Deputados, tem dado o que falar. Conforme Emenda à Constituição, PEC 171 de 1993, depois de 22 anos o projeto está sendo analisado por uma Comissão Especial, e depois seguirá para votação no plenário da Câmara.  

A medida propõe que jovens de 16 anos possam ser penalizados pelos seus crimes. Não existe nada neste mundo que não gere polêmica! Esta não seria diferente, ainda mais um tema como este, num país como esse! Todavia, uma nação onde mais de 90% da população apoia a redução da idade para os infratores, o Congresso Nacional não pode simplesmente tapar os ouvidos e fechar os olhos.

Estamos no século 21, mundo globalizado, não podemos aceitar que um jovem de 16 anos, que pode tantas coisas, inclusive votar e eleger líderes competentes ou inábeis, homens éticos ou corruptos, não possa responder pelos seus atos. Mesmo porque, a impunidade gera violência e os jovens brasileiros têm plena consciência que não serão presos, tampouco punidos. Por isso cometem e continuarão a cometer crimes; e, quando são detidos, a primeira coisa que dizem é que são menores. Portanto, eles sabem muito bem o que estão fazendo! Como disse um juiz, os menores de boa índole devem ser protegidos não os de má índole. E não importa se tem 13, 14, 16 ou 17 anos. Ao cometer o crime ele se coloca como adulto e assim deve ser tratado. De acordo com o magistrado, o jovem de 16 anos deve ser punido da mesma maneira que o maior de 18 anos, mas não pode cumprir a pena no mesmo lugar.

No Brasil da mentira, malandragem, corrupção, incompetência, tudo é permitido e gera problema! Então, onde colocar esses jovens malfeitores, e como reintegrá-los à sociedade? O sistema prisional brasileiro está falido, sucateado há décadas, e a reinserção a sociedade inexiste!, é impossível diante da atual conjuntura! Temos um Governo reconhecidamente incompetente e corrupto, especialmente para lidar com questões da violência, desde a socioeducacional à judicial e a policial. E muito pouco tem sido feito, principalmente no item que resolve “todos os problemas” de qualquer nação: a educação.

Certamente que não existe mudança drástica que possa alterar o atual estado crítico do menor e da insegurança – dentre outras mazelas - no nosso país em curto e médio prazo! Contudo, é fundamental que o poder público faça alguma coisa para atenuar os graves problemas internos que incutem o medo e entrava o desenvolvimento do Brasil.

Verdades e mentiras... Até quando vamos ter medo do futuro do Brasil?! Está tudo errado! Não podemos ter medo das nossas crianças porque isso não agrada aos olhos dos homens de boa vontade, especialmente aos olhos de Deus!...

Sérgio Belleza é administrador, empresário, consultor e autor dos livros, Caminhado com Walkyria e Ascensão e Queda de um Império Econômico.

sábado, 2 de maio de 2015

Uma afronta aos pernambucanos



É uma afronta aos pernambucanos, que sofrem com o precário serviço de fornecimento de energia elétrica, os benefícios tarifários concedidos à Companhia Energética de Pernambuco (Celpe). A Agencia Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) acaba de anunciar novo reajuste ordinário – a contar a partir de 29 de abril próximo. Para os consumidores residenciais, o reajuste foi de 11,19%, e, para as indústrias, de 10,91%.

Estes reajustes só são possíveis devido às “facilidades” incluídas no contrato de concessão (também chamado de privatização). Ao calcular o reajuste, a ANEEL considera os custos que a empresa teve, incluindo custos típicos da atividade de distribuição sobre os quais incide o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), e outros custos que não acompanham o índice inflacionário, como energia comprada, encargos de transmissão e encargos setoriais. O IGP-M, índice adotado, apresenta valores superiores ao índice oficial da inflação, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Portanto, está nos contratos de privatização a “armadilha” que torna os aumentos nas contas de energia tão exorbitantes. Neste modelo as concessionárias nunca perdem. Na realidade, ganham sempre, pois é um modelo de “capitalismo sem risco”.

O caso da Celpe é emblemático. A própria ANEEL mostra que, desde 2011 quando começou a ser divulgado, o Indicador de Desempenho Global de Continuidade (DGC) da Celpe só tem piorado. Ou seja, cai a qualidade do serviço e o consumidor é penalizado com aumentos devido às “facilidades” contratuais para a sua concessão.
Ano
DGC
Classificação
2011
0,67
4º lugar (entre 33 distribuidoras)
2012
0,84
16º lugar (entre 35 distribuidoras)
2013
2014
0,99
1,11

24º lugar (entre 35 distribuidoras)
27º lugar (entre 36 distribuidoras)

Some-se o fato de que novas “facilidades” podem ser criadas – como é o caso, neste ano, da instituição das bandeiras tarifárias (no caso da bandeira vermelha, com previsão para todo o ano de 2015, representa um acréscimo de 8,5 % em média na tarifa), cujos valores arrecadados vão direto para os caixas das distribuidoras. Segundo estimativas da ANEEL, as distribuidoras devem arrecadar cerca de R$ 18 bilhões este ano. Estas empresas ainda pleitearam e receberam um reajuste extraordinário nas tarifas, que no caso da Celpe correspondeu a mais um aumento de 2,2%. E, agora, soma-se mais este reajuste ordinário.

Os afrontosos aumentos nas tarifas de energia elétrica, atividade essencial, não deveriam ser concedidos sem que, ao menos, se levasse em conta a qualidade do serviço oferecido. Em recente pesquisa popular realizada pelo Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau (IPMN), os próprios usuários dos serviços da Celpe atestaram que costumeiramente falta energia em suas residências. De 624 entrevistados, 555 (89%) consideram comum a interrupção de energia.

Como fica claro, pelos dados oficiais, a deterioração dos serviços prestados à população pernambucana, os aumentos nas tarifas se tornam uma recompensa a ineficiência. Um estímulo para o “quanto pior o serviço, maior o custo para o consumidor”.

Precisamos de respostas a esta situação esdrúxula. Não se pode admitir que a empresa continue a ter reajustes em suas tarifas sem que se tenha no mínimo uma contrapartida na melhoria dos serviços prestados. 

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Será que agora o “Gigante” despertou?


Em junho de 2013, a nação brasileira gritou, esperneou, bradou e foi às ruas; inicialmente para reivindicar o aumento das passagens do transporte público. A repressão policial às manifestações fez com que a mídia aderisse ao movimento, que cresceu de forma insustentável! E as ruas viraram palco ambulante para os “libertadores das Terras Brasis”!

Dias depois, os manifestantes protestaram contra a corrupção, má qualidade dos serviços públicos, desvios de recursos em eventos esportivos, especialmente com a Copa do Mundo e Olimpíadas. E, com apoio de mais de 80% dos brasileiros, os governantes, políticos e o mundo viram do que a nação é capaz! Algo comparado só ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1992. Mas, afinal, o que mudou no Brasil depois de tanta pressão?

Um ano e três meses depois, nas eleições de outubro de 2014, reelegeram-se quase os mesmos candidatos, principalmente a presidente, e tudo continuou no mesmo! Por quê? Vários são os motivos. Porém, não podemos esquecer que somos um povo acomodado, inculto, onde  economia e política não são prioridades, nem para os mais esclarecidos!, o que é lamentável! Todavia, embora seja um fato de difícil compreensão, triste, decepcionante até, o importante nestes protestos é que vemos momentos de indignação, de reação! Está evidente que o brasileiro não suporta mais tanta corrupção, crise econômica, impunida, especialmente o PT e a presidente Dilma Rousseff! Por isso precisamos acreditar e ter fé que o Brasil jamais será o mesmo depois do dia 15 de março e 12 de abril de 2015.

As manifestações deste ano levantam uma nova bandeira verde e amarela, uma nova luz brilha, e uma nova esperança tornou-se visível aos olhos dos mais descrentes! A luta por um Brasil melhor nacionalizou-se! Os protestos pelo fim da corrupção, segurança, saúde, boa educação, transportes, injustiça, melhor qualidade de vida, dentre outros gargalos, voltaram a todo vapor no País. Lindo assistir os manifestos, melhor será ver um Brasil de cara nova, renovado, um país menos sujo, corrupto, indigno! Mas quando?... Percebi que a “esperança” voltou a fazer parte da vida dos brasileiros, especialmente dos estudantes, jovens, casais de todas as idades, idosos sofridos, deficientes, dos verdadeiros trabalhadores, empresários inovadores, guerreiros e corretos, homens de bem, até mesmo de políticos éticos que se manifestaram por todo Brasil. Qual o “verdadeiro” brasileiro, que ama e quer melhoras para o Brasil, não gostou de ver e ouvir o povo nas ruas?! Foi magnífico.

As indignações, convocações propõem renovar e reivindicar contra tudo que está errado no Brasil, especialmente no âmbito federal. Todos sabem por que o povo foi à rua! Mas parece que o governo ainda navega na maré mansa do poder sem limite! Não percebendo que o fora Dilma e leve com você o Lula e o PT, nada mais é que o fim  desta esquerda socialista-chula-populista-autoritária que manda, desmanda, desmoraliza e desmancha o Brasil há 12 anos!

Um sábio disse que “ai dos políticos que não mantiverem uma relação orgânica com o povo. Estes merecem ser varridos das praças e das ruas”. Já o jornalista Reinaldo Azevedo acrescentou que os movimentos deste ano comprovam o que chamou de emergência de uma “nova consciência”!

Confiante, espero que nosso Brasil se torne um país próspero, seguro, justo, povo instruído, famílias educadas, políticos trabalhadores, mais éticos, com qualidade nas escolas, hospitais, estradas, transportes públicos, enfim, que a população brasileira possa ajudar a reorganizar o nosso Brasil, com movimentos pacíficos, sérios e objetivos, e nossa pátria possa vir a ser verdadeiramente amada e idolatrada, um país livre...

Sérgio Belleza é administrador, empresário, consultor e autor dos livros, Caminhado com Walkyria e Ascensão e Queda de um Império Econômico.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Movimento dos sem...


O Brasil parece uma “comédia”! Diariamente somos bombardeados com notícias ruins, tristes, decepcionantes, desestimulantes. As sandices são tantas que às vezes acho que vou explodir!

Desde criança ouço políticos varrendo, caçando corruptos no Brasil. Santa demagogia, atrelada à hipocrisia dos maus políticos, tendo como tempero a ignorância e a esperança da maioria do tolo povo brasileiro!

Nos últimos 12 anos, um fato tem me chamado a atenção - os movimentos dos Sem... Desses movimentos, o que faz mais zoada é o dos Sem-Terra. Tornou-se, sim, um movimento meramente político. Seus integrantes ultrapassam limites, invadem terras produtivas, destroem e atrapalham o desenvolvimento do País, violam os direitos institucionais... Amiúde, se desviam do foco, provocando embaraços para o propósito defendido! Poderia ser realmente um movimento legítimo. Mas hoje o que se vê é uma falta de respeito ao cidadão de bem, que trabalha, produz, gera riqueza para o Brasil. Lamentável... 

Os Sem-Teto ocupam casas, prédios, qualquer lugar onde possam morar. Não sendo diferente dos demais, fazem também do movimento manifestação política! Perdendo assim, como todos os movimentos, sua característica social.

Movimento pouquíssimo difundido, mas de relevada preponderância, é o do Sem-Escola. Eles querem escola, estudo, querem aprender. Governos falam, prometem e muito pouco acontece. O resultado é a população frustrada, inculta, sem instrução, sem educação, sem discernimento, logo, o voto é sem critério e direção. Este é, portanto, o mais verdadeiro, racional e justo. Infelizmente um movimento com pouco “movimento”, entusiasmo, fracassado, infelizmente!...

De coração fragmentado e espírito abalado, destaco alguns movimentos que, devido a sua longevidade, a terminologia já está em desuso. São os movimentos dos Sem-Punição, Sem-Justiça, Sem-Proteção, Sem-Dignidade, Sem-Respeito, Sem-Trabalho, Sem-Dinheiro, Sem-Perspectiva, e, o mais grave de todos: movimento dos “Sem-Fé e Sem-Esperança!” Esses dois últimos são os que “ainda” dão sustentação a essa nação que acredita num Brasil que um dia dará certo.

Todavia existe um movimento que me deixa boquiaberto, atônito, imoderado!, Sem dúvida, o MOVIMENTO DOS SEM-VERGONHA! Movimento corporativo, privativo, poderoso, que goza de impunidade parlamentar. O movimento dos sem-vergonha é o mais poderoso e talvez o único que funcione no Brasil! Há mais de 500 anos, ininterrupto e eficazmente, usam e abusam do País! Eles buscam, com politicagem, sobretudo no Congresso e Senado Federal, a maneira mais fácil de enriquecer e dispor de todas as regalias e poder que necessitam para alimentar seus poderes, vaidades, quimeras!

Manifestar, protestar, escrever, bradar, ir às ruas, votar, usar as redes sociais são ferramentas que todos os povos dispõem e devem ser usadas! Precisamos demonstrar a nossa indignação diante da sujeira em que está envolvido o nosso país.

O Brasil é mesmo comédia ou os políticos “sem-vergonha” querem nos fazer de palhaços?

Sérgio Belleza é administrador, empresário, consultor e autor dos livros, Caminhado com Walkyria e Ascensão e Queda de um Império Econômico.

terça-feira, 7 de abril de 2015

As denúncias do Roldão


Neste início de abril, entre outros fatos da maior importância para o Estado de Pernambuco, merecem destaque as denúncias, tornadas públicas pela imprensa escrita (01/abril), do até então presidente da Agência de Regulação de Pernambuco (Arpe) Roldão Joaquim dos Santos, ao deixar o cargo.

A Arpe é uma autarquia especial, vinculada diretamente ao Gabinete do Governador e dotada de autonomia financeira, orçamentária, funcional e administrativa. Foi criada em 2000 para fiscalizar os serviços públicos delegados nas áreas de energia elétrica, saneamento e transporte, e os contratos firmados pelo Estado por meio de Parcerias Público-Privadas (PPPs) e com Organizações Sociais (OSs).

Na prática, a Arpe cuida de tudo em Pernambuco: ônibus, Arena Esportiva, loterias, a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) e sua PPP de saneamento, pedágios na Ponte do Paiva e no Complexo Viário de Suape, o gás natural canalizado, o empreendimento do Centro Integrado de Ressocialização de Itaquitinga (conhecido como Presídio de Itaquitinga), a atuação das Organizações Sociais de Saúde (OSSs), a organização social Centro de Abastecimento e Logística de Pernambuco (Ceasa), e a Companhia Energética de Pernambuco (Celpe), através de convênio federal com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Roldão fez denúncias gravíssimas sobre o esvaziamento e a retirada dos poderes da Arpe para atuar na sua missão constitucional de fiscalizar. Deve-se lembrar que o papel da Arpe na regulação dos serviços públicos delegados pelo Estado de Pernambuco é necessário para impedir o abuso do poder econômico e garantir o acesso universal dos cidadãos a serviços de qualidade com preços justos.

O que se esperava da Arpe, desde a sua criação, era uma agência reguladora ética, transparente, justa e eficiente, que cumprisse plenamente as suas funções, servindo à sociedade no equilíbrio dos interesses dos usuários, do poder concedente (o Estado) e dos prestadores de serviços públicos delegados. Infelizmente, isso não se verificou.

Segundo relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE) sobre a prestação de contas do governador, no exercício de 2013, a Arpe apresentava a totalidade dos cargos efetivos vagos. Trabalhava desde a sua criação com o auxilio de poucos funcionários, cedidos por outros órgãos públicos, e com pessoal contratado, temporário e comissionado, sem a devida capacidade técnica, e sem uma estrutura física suficiente. Apesar de realizar concurso público, em 2014, não houve a homologação dos resultados e nem a nomeação dos 35 técnicos aprovados. Ou seja, deliberadamente a Arpe não realizava (nem realiza) o seu papel fiscalizador. As autoridades estaduais, demonstrando total descaso, insistem em um faz de conta, repudiado pela sociedade pernambucana. Esta é a pergunta que não quer calar: quem está se aproveitando da inércia e da inoperância da Arpe?

Ainda sobre as denúncias do seu ex-presidente, a Arpe está impotente diante da situação surrealista de autofiscalização da Secretaria de Saúde sobre as Organizações Sociais que atuam na saúde, uma delas, o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip). Uma lei estadual (Lei 12.510/2013) permite que contratos milionários (estimados em aproximadamente 500 milhões de reais anuais) entre o Estado e o Imip, que administra três hospitais e 14 Unidades de Pronto Atendimento, sejam assinados, pagos e, ao mesmo tempo, fiscalizados pela Secretaria de Saúde, cujo secretario na época era Antônio Figueira, ex-presidente do próprio Imip e atual Secretário da Casa Civil. Em março último, o TCE decidiu abrir um processo de auditoria especial para fiscalizar as OSs da área de Saúde. Aguardemos.

Outra gravíssima acusação diz respeito ao impedimento da Arpe de fiscalizar as PPPs para a construção do Presídio de Itaquitinga e da Arena. Em ambos os casos, isso se deu com base em parecer da Procuradoria Geral do Estado, cujo titular, na época, era Thiago Arraes de Alencar Norões, atual secretário de Desenvolvimento Econômico. Tal situação levou o Tribunal de Contas do Estado a abrir auditorias especiais nas PPPs da Arena e do presídio de Itaquitinga. Estes dois empreendimentos, verdadeiros elefantes brancos para o Estado, se tornaram grandes sumidouros de recursos do erário público. No caso da Arena, o contrato assinado com a Arena Pernambuco Negócios e Investimentos S.A (Odebrecht) obriga o governo do Estado a cobrir os rombos no faturamento anual caso a receita seja 50% da meta (R$ 110 milhões, atualizados). Por isso, o governo repassou, em 2014, R$ 87 milhões e pagará, em 2015, mais R$ 93 milhões. Sem dúvida, um negócio entre amigos, realizado pelo governo com o dinheiro do povo pernambucano.

As críticas e denúncias do Roldão devem ser investigadas, doa a quem doer, pois imperou nestes episódios a total falta de transparência do governo estadual, acarretando vultosos prejuízos ao erário público.

Todavia, cumpre ressaltar que também deve ser investigada a responsabilidade do Sr. ex-presidente, que desde 2011 estava à frente da Arpe, e, só agora, ao entregar o comando da Agência, vem a público. Foi cúmplice, sim, pois não tomou as medidas que deveria tomar, informando à sociedade o que estava ocorrendo.

O povo pernambucano merece e exige esclarecimentos cabais do Sr. Ex-presidente da Arpe e do Sr. Governador do Estado. 

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O melhor para o Brasil é Dilma renunciar


Eles não sabem o que fazem, foi mais ou menos assim a manchete do principal site dos blogueiros petistas, lembrando uma frase evangélica “perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”, comentando a manifestação do dia 15 contra a presidente Dilma. Os manifestantes, um milhão ou mais de 200 mil, na Avenida Paulista, em São Paulo, e cerca de outro milhão na soma das manifestações em outras cidades brasileiras, seriam um bando de ingratos e desmemoriados imbecis.

Mas não são só ingratos como igualmente golpistas, como são chamados os manifestantes por outros blogueiros fiéis ao governo. Seja o que for, esses quase, ou mais de, dois milhões de manifestantes são um número bastante suficiente para provar haver uma grande insatisfação no Brasil. Insatisfação detectada pelos correspondentes estrangeiros e publicada com destaque no Exterior, sem falarem em qualquer tipo de golpismo, mas num movimento de insatisfação dentro do quadro normal das democracias.

Entretanto, é verdade, o inesperado, grande, número de manifestantes nas ruas e o alto índice de desaprovação do governo colhido em sondagens levanta a questão se a presidente Dilma terá condições para governar nos quase quatro anos que lhe restam. Não se trata de uma insatisfação só dos eleitores do candidato derrotado nas ainda recentes eleições, esse descontentamento engloba uma parcela importante de gente de esquerda, como este colunista, e mesmo de petistas, desencantados com a presidente Dilma já no seu primeiro mandato.

Esse desencanto se reforçou com a constatação de ter havido uma campanha eleitoral mentirosa montada pelo marqueteiro João Santana, vendendo uma Dilma com promessas eleitoreiras irreais, ocultando uma situação de pré-crise econômica no Brasil. Promessas abandonadas tão logo Dilma obteve esse novo mandato, no qual quer governar com o programa do adversário derrotado e com um banqueiro, quando era isso que mais criticava na insidiosa campanha contra Marina. Pode-se falar, neste caso, em credibilidade do governo? Pelo que tenho lido nos textos dos correspondentes por aqui publicados, a resposta é “não”.

A outra razão, ainda mais forte, são as denúncias de corrupção reveladas pela justiça federal na Operação Lava Jato, envolvendo propinas substanciosas com dinheiro público como é o da Petrobras, beneficiando participantes do esquema partidário no qual se apoia a presidente Dilma, a base aliada, assim como seu próprio partido. Não há mais confiança e as manifestações do domingo, 15 de março, quiseram transmitir essa mensagem à presidente. Sem esquecermos as prováveis astronômicas multas que serão aplicadas à Petrobras nos processos agora acionados, no Exterior, pelos seus acionistas por se sentirem lesados.

Nada a ver com as manifestações de março de 1964 contra o governo Goulart, quando o governo janguista era alvo de ataques por estar empenhado na concretização das reformas de base, que iriam mudar a estrutura política e social brasileira. A insatisfação atual é também resultado da adoção de medidas que vão minar e retirar uma parte das ajudas prestadas à população pobre, permitindo-lhe sair da miséria, mas sem terem sido feitas as grandes reformas necessárias. E um dos setores mais decepcionados inclui o Movimento dos Sem Terra, cansado de esperar por uma reforma agrária sempre adiada e agora impossibilitada com a presença de uma ministra do agronegócio no Ministério de Dilma.

Supondo-se que a presidente Dilma insista em permanecer, como irá reagir às manifestações dos descontentes, sem o apoio da verdadeira esquerda, apoiada apenas em alguns fanáticos incapazes de ver a realidade ou sentindo-se obrigados a repetir a cartilha do poder que insiste em martelar haver golpe no ar, sem querer admitir haver em Brasília um governo fantasiado de esquerda, mas insensível às verdadeiras reformas. O Brasil não só perdeu a oportunidade de realizar uma justa e plena reforma agrária, mas se submeteu aos caprichos dos ditadores da monocultura, denunciada pela esquerda há quase um século.

Pior ainda, para favorecer essa monocultura que vai de encontro ao desenvolvimento sustentável, permitiu e permite o desmatamento, a apropriação das terras indígenas pelos plantadores de soja. Como um trator, o governo – eleito com o aval da esquerda – não tem a sensibilidade da negociação com a população indígena, como ocorreu na barragem de Belo Monte. Insensível aos novos desafios em termos de novas tecnologias, o governo Dilma não viu e não vê que o Sol, hoje olhado como ameaça de seca por falta d´água, poderia ser a fonte de novas riquezas dentro de um quadro de proteção ambiental e de um relançamento de nossa economia interna, se tivesse sido lançado um programa de aproveitamento da energia solar.

Na sua torre de marfim braziliense, Dilma não viu o avião suíço Solar Impulse iniciar sua volta ao mundo sem combustível e só com a luz solar acionando suas hélices, com o objetivo de chamar a atenção do mundo para o uso da energia solar. O Brasil perdeu, por falta de arrojo, e falta de cientistas no Ministério, o desafio do futuro, e isso vai significar em alguns anos, ficarmos de novo no final do pelotão dos países emergentes, quando até a antiga Birmania quer sair de sua posição no quarto-mundo, para se lançar no uso intensivo da energia solar. O Brasil, ao contrário da Europa, não relançou as vias ferroviárias e continua poluindo e poluindo-se com o petróleo. Em matéria de Relações Exteriores, a atual política externa é nula, depois da passagem do clã Patriota, quando sob Celso Amorim o Brasil tinha sabido se fazer respeitar.

Embora estivessem entre os manifestantes saudosos da ditadura militar, eles eram minoria diluída entre os decepcionados por estes dois meses e meio de governo claudicante, que recorre a reajustes fiscais sem tocar nas fortunas, nos bancos ou nos direitos de sucessão dos milionários, governo ao mesmo tempo rejeitado pela própria direita depois de a ela recorrer esperando achar apoio com as últimas medidas econômicas, numa manobra suicida que lhe está custando a perda das bases populares. A ridícula expressão da presidente, ao prometer manter as leis trabalhistas e aumentar o apoio à educação “nem que a vaca tussa”, se tornou ainda mais ridícula, pois “a vaca tossiu!”.

Diante desse quadro, sujeito a se agravar nos próximos meses, com a inflação e as implicações do processo Lava Jato, talvez o melhor para se relançar a economia e a política social seja a hipótese de uma renúncia de Dilma, seguida de novas eleições. Será menos prejudicial ao Brasil do que se esperar para ver no que vai dar. Não se trata de golpe, temos de reconhecer tudo ser um irremediável gol contra.

Rui Martins, do Direto da Redação