sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Esporte Clube Bahia, Vitória, Norte, Nordeste...


Os anos 60 foram marcados por revolução, ditadura, guerra, e, a partir do início dos anos 70, tudo vira pelo avesso. As coisas mudam e tomam formas irregulares, inigualáveis. É a década da alternativa, da radicalização e de experiências comportamentais jamais vistas no mundo!

Em 1970, Pelé, Rivelino, Tostão, Gerson e todo aquele “time” fantástico fazem do Brasil tricampeão do mundo, e o povo vai à loucura! No final dos anos 80, o Bahia é bicampeão e Sport Recife campeão brasileiro! Na economia dos anos 70, o Brasil chegou a crescer 13% a.a! Na seguinte, o País vibra com o fim da ditadura, a iniciante democracia é ativada, mas tem um recomeço melancólico com a morte do presidente eleito, Tancredo Neves!

Esta analogia entre futebol, economia, região serve para evidenciar que o sucesso e o fracasso estão de alguma forma interligados.

Desde os primórdios das copas do Mundo até hoje, ‘todos’ os jogadores da Seleção Brasileira que disputaram uma Copa foram de times do Sudeste e do Sul! Tudo que concerne à economia, PIB, instrução, dentre tantas outras coisas, o Sudeste e o Sul sempre estiveram muito à frente! Os sete estados destas regiões produzem 72% do PIB. Enquanto os 16 estados do Norte e Nordeste apenas 18%. Sabe-se que o progresso é a lei da história da humanidade, e o homem está em constante processo de evolução. Infelizmente com o Esporte Clube Bahia, o Vitória, e as regiões Norte e Nordeste este processo é falso! Notório que o futebol é decadente, a economia nordestina, ainda crua, anda lentamente, a baiana anda a passos de caranguejo, pois éramos o 7º no PIB, agora somos o 8º, a dúvida agora são Goiás e Pernambuco em 2014...     

Recordo o melhor centroavante que vi jogar: Beijoca. Melhor beque: Roberto Rebouças. Douglas e Picolé, Charles e Bobô, brincavam de jogar bola, alguns do Bahia. André Catimba, Rick, Mário Sérgio e Osni do Vitória nos encantavam, e tantos outros craques que jogavam não em grandes times, mas em “bons times”, liderados por uma diretoria experiente, competente, “ética” em 70 e 80. Em 2015, o Norte e Nordeste serão representados apenas pelo Sport Recife na primeira divisão do Campeonato Brasileiro. O pequeno estado de Santa Catarina, quase sete vezes menor que o estado da Bahia, tem o PIB maior, e terá quatro times na primeira divisão. Vergonha!...

Nos anos 80, trabalhei num dos maiores grupos empresariais da Bahia, Brasil, a Cresal. A Editora Abril, lança anualmente a revista Exame Especial, apresentando os 300 maiores grupos empresariais do Brasil. Minha curiosa satisfação era (não é mais) ver os grupos genuinamente baiano: mais de 20. A própria Cresal, Paes Mendonça, Odebrecht, Banco Econômico, OAS, Barreto de Araújo, Suarez, Chaves, Lebran, Fernandez, Manoel Joaquim de Carvalho, Goes Cohabita, Ipê, José Lessa Ribeiro, Soares Leone, Correia Ribeiro... Atualmente não temos um grupo genuinamente baiano na revista Exame com sede na Bahia! Cadê os grandes empresários, empreendedores baianos? Desistiram da Bahia? Será que eles vêm recebendo apoio, incentivo? Ou desprezo e perseguição? Lamentável!...  

Assim vamos caminhando, arrastando-se com uma bola no pé e com a mão esmolando ao Governo Federal assistência para o Norte e o Nordeste famintos, carentes, dependentes de tudo e de todos! Pior não poderia ser nossos falsos e maus políticos e governos incompetentes, corruptos, que só visam ao próprio bem. Se o Brasil vai mal, o que dizer do Norte e do Nordeste?! 

Sérgio Belleza é administrador, empresário, consultor e autor dos livros, Caminhado com Walkyria e Ascensão e Queda de um Império Econômico.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Domingo sem descanso


O Ananias me disse que a Graça, sua esposa, não é a melhor nem a pior cozinheira do mundo, mas é a mais complicada.

Em algum domingo, ela diz a ele: - Amor, hoje resolvi fazer uma comida especialmente para você. Você vai comer um “escalê com molho de viarrá, afogado em conhaque de berinjela, coberto com fatias de queijo de beretê”.

Antes que ele diga “não, não, não...”, ela já começa a dar as ordens.

- Pega aquela panela assim, assim, assim, que está no fundo da parte alta do armário.

Lá vai ele buscar a escada no quartinho dos fundos! Tira todas as sacolas dos degraus, inclusive o gato, que lhe dá uma arranhada, por ter tido seu sono atrapalhado.

E como tem panelas no alto do armário! Panela grande, panela pequena, panela pequena dentro de panela grande. Tem até panela grande dentro de panela pequena! Tantas panelas, que parece terem sido dobradas para caber, igual a panos de cama e mesa.

Por questão de lógica, a procurada é a última.

Tudo colocado de volta, embora tenham sobrado duas de fora, ele leva o fruto de sua vitória para a Graça.

- Amor, desculpa, eu falei errado! Não é essa, é aquela outra que tem um biquinho na tampa, sabe?

Desce todas as catrabuchas de novo e encontra a do biquinho! Volta tudo pra dentro de novo e, desta vez, sobraram três de fora. Vamos deixar para quando for colocar a do biquinho depois do almoço.

Ressabiado, ele leva a do biquinho para a esposa amada.

Desta vez, o comentário é mais doloroso: - Amor, você lava a louça pra mim, pois eu fiz minhas unhas ontem. Combinado?

Depois disso, apenas um susto: - Corre aqui, Ananias, que eu coloquei fogo no pano de prato!

A Graça gosta mesmo é de brincar de casinha! Usa um recipiente para cada ingrediente.

A mesa do almoço, com a toalha nova, flores no jarro, utensílios que foram presentes de casamento, tudo combinando, está um primor! Mas a cozinha! Parece um ferro velho mal organizado, visto que organizado já não é esteticamente agradável.

O receio do Ananias é encontrar peças de carros roubados entre os pratos, espátulas, coadores, panelas e panelinhas, e facas, muitas facas, muitos garfos, muitas colheres, muitos copos, muitas xícaras.

A comida é até palatável, mas o custo-benefício é terrível!

Depois de lavada a louça, ele vai até o quarto para trocar a camiseta molhada na barriga e encontra a esposinha dormindo feito um anjo, com a tranquilidade do dever cumprido.

Ele age no silêncio, para não acordá-la. Assim, ele pode ver seu futebol em paz.
Vai que ela acorda e inventa de fazer o jantar?

Por isso, ele me contou em segredo que está colecionando frases, para quando ele ameaçar de fazer o almoço.

- Não, hoje é o meu dia de cozinhar pra você, para demonstrar todo o meu amor. Vou fazer uma omelete especial, “au petit pois”, com bacon flambado, coberta com molho de maionese, acompanhada de torradas bem tostadinhas!

- Não, Amor, você anda muito cansada, vou levar você para comer uma peixada no restaurante mais caro da cidade!

- Não, Amor, hoje eu quero ficar grudadinho em você o dia inteiro. Vamos pedir uma pizza por telefone!

- De jeito nenhum, Amor! Hoje é dia de São Tibúrcio e nós devemos jejuar!

E ele se justifica: - Pôxa, até o Senhor descansou no domingo!

- Não, Ananias, foi no sábado!


Sérgio Antunes de Freitas

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Perguntei e o povo brasileiro respondeu


Após o resultado da eleição para presidente do Brasil em 26 de outubro deste ano, resolvi acalmar o meu estressado coração. Durante 21 dias, não vi noticiários na TV, não li revistas, jornais, tampouco conversei ou debati sobre política, economia, queria sossego. Eu estava uma pilha, sem rumo, fé, sem lenço nem documento!

Na crônica anterior, perguntei quem venceria as eleições, Aécio ou Dilma. Resumi minha opinião sobre o Brasil em todos os ângulos, e a capacidade dos candidatos em resolver os “gargalos” do nosso rico-pobre País. Como derrotado, agora não me cabe analisar o resultado da eleição, se foi perdida por isso ou por aquilo; eximir-me, ficar magoado, decepcionado, acusar uma região ou outra, não resolverá nada. Muito pelo contrário, na verdade, agora é hora de unir, agregar e lutar pelos meus ideais! Resta-me, portanto, o dever de continuar a ouvir, falar, escrever, agir e compreender que o futuro do meu Brasil depende agora muito mais dos perdedores do que dos vencedores.

Dizem que ninguém é absoluto o suficiente para se colocar diante das pessoas como o rei da razão. O meu certo pode ser o seu errado, e vice-versa. Cada um é cada um. Mesmo porque, opinião não é pecado, tampouco crime, é democrático, coisa que certos partidos e, em particular, certos partidários exaltados, fanáticos, ditadores não gostam, muito menos concordam! Todavia, administrar, liderar, comandar uma nação não é uma questão de “opinião”, sugestão, opção, é muito mais que isso: é o verdadeiro compromisso com o seu país e povo, com a democracia, experiência, ética, sobretudo, competência! Não existe outra forma. Nos anais da história, os verdadeiros estadistas mostram como transformar uma pequena nação, num “grande país”, e não apenas continuar sendo um “país grande”, como é o Brasil!

Passei parte do meu último domingo e segunda-feira vendo noticiários, redes sociais, lendo revistas e jornais... Nada a acrescentar mais do que foi feito pelo governo nos dias seguintes ao resultado da eleição! Digno foi o discurso do senador Magno Malta no dia que o candidato derrotado, Aécio, retornou ao Senado!

Agora só me resta desejar à presidente reeleita, Dilma, boa sorte e sabedoria na condução deste Brasil tão desgastado, sofrido, maltratado! Que ela reveja e abandone as convicções fracassadas da política econômica, promovendo a abertura da economia de forma equilibrada e coerente, abraçando a nova ordem da meritocracia, nomeando pessoas competentes, éticas para sua equipe econômica, ministérios, empresas estatais. Que as reformas tão necessárias ao Brasil sejam feitas e aprovadas, e que o Banco Central faça o seu papel com independência, assim como o Itamaraty exerça o seu papel de interesse exclusivo do País, e não de um partido! Que o combate a inflação e a corrupção seja tão severo quanto o incentivo a educação, cultura e instrução. E, ao mesmo tempo as “bolsas” sejam, de fato, só para os mais necessitados e carentes! Afinal, acredito que a Bolsa Família existe para tirar as pessoas da pobreza, não para perpetuá-las na pobreza! Principalmente, que se abandone a ideologia comunista, o populismo, que só gera desordem, preguiça e atraso! Entendo que só assim o Brasil reencontrará seu caminho de prosperidade, credibilidade nacional, sobretudo, internacional, e crescimento sustentável.

Rememoro o ilustre baiano, Ruy Barbosa, quando disse: “A pátria não é ninguém: são todos; e cada qual tem no seio dela o mesmo direito à ideia, à palavra, à associação. A pátria não é um sistema, nem uma seita, nem um monopólio, nem uma forma de governo: é o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade”. Que Deus abençoe o Brasil.

Sérgio Belleza é administrador, empresário, consultor e autor dos livros, Caminhado com Walkyria e Ascensão e Queda de um Império Econômico.


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Leilão de energia solar e a campanha “Energia para a Vida”


Grande expectativa foi criada com o que se convencionou chamar de ”leilão da energia solar”, pois seria o primeiro certame a nível nacional em que a fonte solar seria vendida sem competir com outras fontes. Depois de alguns adiamentos, no último dia 31 de outubro foi realizado o “6º Leilão para Contratação de Energia de Reserva”.

É importante mencionar que o Estado de Pernambuco, em dezembro de 2013, já havia realizado um leilão específico para a fonte solar. Na oportunidade, o preço teto estabelecido foi de R$ 250,00/MWh. O leilão foi exitoso, possibilitando a contratação de 122 MW a um preço médio de R$ 228,63/MWh, com ofertas entre R$ 193,00/MWh (da empresa Sun Premiere) e R$ 246,00/MWh (da empresa Kroma).

No leilão nacional, a Empresa de Pesquisa Energética – EPE cadastrou 1.034 empreendimentos, uma oferta total de 26.297 MW de capacidade instalada, para serem entregues a partir de outubro de 2017. Com contratos que preveem o suprimento por 20 anos. 

Os projetos de energia eólica predominaram mais uma vez, com 626 empreendimentos (15.300 MW), seguidos pelos 400 projetos de energia solar fotovoltaica, e 8 projetos de térmicas a biomassa utilizando resíduo solido urbano – lixo e biogás (151 MW). O número de projetos fotovoltaicos totalizou 10.800 MW, ou seja, comparável a toda atual potência instalada do sistema CHESF.

No leilão, cada fonte vendeu energia em separado, sendo os preços máximos estipulados para serem praticados pelos vendedores: R$ 262,00/MWh para a energia solar, R$ 144,00/MWh para a eólica e R$ 169,00/MWh para as termelétricas a biomassa.

Foram selecionados 62 projetos, sendo 31 eólicos e 31 solares (nenhum a biomassa). Foi contratada uma capacidade instalada de 889,7 MW em energia solar, a um preço médio de R$ 215,12/MWh, com um deságio de 17,9%, bem maior que os 5% projetado pelos analistas. O Estado da Bahia teve o maior numero de projetos vencedores: 14 no total. Pernambuco, que se destacou realizando o 1º leilão específico para energia solar, apesar dos 43 projetos apresentados, decepcionou, pois não teve nenhum selecionado.

O leilão mostrou a vitalidade do setor fotovoltaico pelo numero de projetos apresentados e, destaque-se, pelos preços ofertados. A geração de energia solar mostrou-se competitiva frente a outras fontes energéticas a curtíssimo prazo. Os preços oferecidos pelos empreendedores foram muito abaixo daqueles apregoados pelos gestores do planejamento energético, que tentam assim justificar o baixo aproveitamento desta fonte energética na matriz elétrica brasileira.

O próprio Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE), com horizonte em 2023, produzido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), prevê que a energia solar alcance potência instalada de 3.500 MW ao fim desse horizonte decenal, quando deverá atingir participação de cerca de 2% da capacidade instalada total. Agora, deveria ser refeito diante dos números apresentados no leilão que acabou de ocorrer. A EPE cita a Agência Internacional de Energia ao estimar que somente em 2020 a energia solar será competitiva frente às demais fontes. Esse argumento é falso – como indicam os valores obtidos no leilão.

Lamentavelmente falta ambição e sobra discurso àqueles que hoje estão à frente da gestão energética brasileira. Os números arrolados no Plano de Expansão Decenal de Energia – que prevê os rumos energéticos do país para a próxima década, ou seja, entre 2014 e 2023 –, publicados pela EPE e pelo Ministério de Minas e Energia, mostram uma previsão de investimentos de R$ 1,263 trilhões até 2023. Destes, mais de ¾ dos recursos irão para os combustíveis fósseis e apenas 9,2% para as fontes renováveis – como PCH, eólica, solar e biomassa. É fácil concluir então que as fontes renováveis no país estão sendo ignoradas, em particular, a energia solar.

Falamos até aqui de geração elétrica solar centralizada em grandes usinas. Ao nos debruçarmos sobre a geração descentralizada desta fonte energética, verificamos o total fiasco da Norma Resolutiva 482/2012 da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), no que concerne ao apoio e incentivo à instalação de micro e mini geradores no país. O ano de 2013 (inicio da vigência da norma) mostrou um numero irrisório de instalações solares em residências e pequenos comércios. Dados da própria ANEEL mostram que até abril de 2014 menos de 300 sistemas fotovoltaicos haviam sido instalados no país. Ao compararmos com os 1,5 milhões de residências na Alemanha, vemos que este é um numero insignificante diante do potencial solar existente em nosso país.

O sucesso desta fonte de energia, em outros países, se deve basicamente a implementação de políticas publicas. No Brasil, o poder público tem ignorado esta fonte energética, que hoje está presente na matriz elétrica com menos de 0,1% do total (vale repetir: menos de 0,1% do total de energia gerada no país vem da fonte solar).


Diante dessa constatação e da atual política de oferta de energia que privilegia mega-hidroelétricas, termelétricas a combustíveis fósseis e usinas nucleares – foi lançada, em agosto de 2014, por mais de 80 organizações e entidades da sociedade civil, a Campanha “Energia para a Vida”, cujo objetivo é promover uma nova política para o setor elétrico no Brasil, baseada em princípios de uso de fontes renováveis (em particular, a energia solar descentralizada), eficiência energética, justiça social, participação democrática e sustentabilidade ambiental. Para saber mais, consulte: www.energiaparavida.org.

Heitor Scalambrini Costa

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Dilma e seu segundo mandato


Parodiando o francês de Gaulle, para quem era difícil governar um país com 360 tipos de queijos, poderíamos dizer não ser nada fácil, para a reeleita Dilma Rousseff, governar uma população tão diversa com cerca de 140 tons de pele, conforme levantamento de identificações feitas pelos próprios frequentadores brasileiros do Facebook, publicado no suplemento “Das Magazin”, do jornal suíço “Tages Anzeiger”.

É verdade que essa população, embora epidermicamente diversa, estaria polarizada apenas em petistas e antipetistas e o Brasil estaria dividido em duas partes, separadas pela muralha dos votos, norte e nordeste, contraposta a centro, sudeste e sul?

O veterano Jânio de Freitas, antigo UH Rio de Samuel Wainer, comentarista independente nas Folhas, nega haver a rachadura anunciada, porém no Facebook, explodiram as ofensas aos nordestinos, e o jornal paulista “A Tribuna”, de Santos, chegou mesmo a dedicar uma página ao flagrante da intolerância e preconceito nas redes sociais.

Inconformados com o resultado da votação, num pleito com excessos e ofensas, mas democrático, muitos aecistas derramaram pela Internet sua ira de tendência separatista contra os Estados nos quais Dilma venceu, como se a eleição presidencial tivesse revelado a existência de uma fratura latente separando nortistas e nordestinos dos sulistas.

Não tão variada como os matizes epidérmicos, mas igualmente bastante diversificada, é a inflação partidária brasileira, embora boa parte dos partidos esteja pronta a aderir ao governo, dependendo da oferta. Essa proliferação partidária estaria comprometendo o bom funcionamento da vida partidária e um enxugamento partidário seria um dos principais objetivos da reforma política, anunciada pela presidente Dilma, logo após sua reeleição.
Com a reeleição, não há para a presidenta Dilma uma data obrigatória de começo do novo governo, podendo ela antecipar nomeações de ministros, adiar suas substituições e novas escolhas para alguns meses depois, como fez Lula na sua reeleição, ou simplesmente observar a continuidade.

A presidenta priorizou dois objetivos de seu governo, logo depois de anunciada sua vitória: a reforma política e o combate à corrupção.

Porém, ainda antes de sabermos o teor da reforma política anunciada, já ficou definido, nestes dias, pós-eleição, que não se fará a reforma por plebiscito e caberá ao Legislativo e não ao Executivo defini-la. Em outras palavras, Dilma prometeu algo que provavelmente não poderá controlar, mas será da alçada dos novos deputados e senadores, na maioria conservadores e não interessados nessa reforma.

E no que consistiria essa reforma política? A presidenta não deixou claro, mas deveria incluir uma drástica redução no número dos partidos políticos; um fortalecimento do voto partidário em lugar do atual voto pessoal; a proibição da reeleição nos cargos públicos, em favor de um único mandato de cinco anos para prefeitos, governadores e presidentes; o melhor controle do financiamento das campanhas eleitorais impedindo-se a participação de doações empresariais; a modernização da gestão das empresas estatais; e a limitação ou proibição do uso de Medidas Provisórias decretadas para se poder governar.

E a corrupção? Considerada há pouco como um falso debate, talvez por afetar tanto políticos da direita como da esquerda, a questão da corrupção, epidemia nacional, assumiu proporções maiores nos debates da campanha presidencial e exige hoje uma intervenção do governo, senão para sua extinção, ao menos para sua redução.

Porém, acabar com a corrupção nos órgãos públicos não depende exclusivamente da presidenta e exigiria um hercúleo esforço de renovação nacional. Entretanto, ao que parece, os derrotados de domingo, não menos envolvidos em corrupção, ameaçam preferir atacar apenas as denúncias recentes de corrupção sem intenção de usar a memória ou de criar meios que dificultem o acesso a formas de corrupção. Anuncia-se uma forte oposição e mesmo o risco de proporem um impeachment às vésperas das Olimpíadas. Essa oposição já começou com o esvaziamento do Decreto pela criação de conselhos populares.

Depois de ter adotado, durante seu primeiro mandato, o princípio de não mexer na estrutura da mídia e não apoiar e nem incentivar o desenvolvimento da imprensa nanica de esquerda, financiando indiretamente a grande mídia com verbas publicitárias e perdoando suas dívidas, como defendiam os ministro Paulo Bernardo e Helena Chagas, voltou ao debate a questão da regulação da mídia, com uma provável nomeação de Ricardo Berzoini para dar prosseguimento ao plano do ex-ministro Franklin Martins. Haverá clima para isso?

Dilma prometeu aos blogueiros intervir nesse vespeiro sem utilizar a censura e sem afetar a liberdade de expressão da imprensa, depois do ingrato comportamento da imprensa de direita durante a campanha eleitoral.


Mas tudo isso é ninharia diante dos grandes desafios estruturais deste segundo mandato de Dilma – reencontrar o caminho do crescimento econômico, estancar a inflação, evitar uma revalorização do dólar e o aumento dos juros, que nesta semana já recomeçam a subir.

Rui Martins, do Direto da Redação

A crônica de um fracasso


Governos têm sucesso quando executam políticas públicas que respondem aos desafios apresentados, e criam assim condições para um futuro melhor. No caso do que se convencionou chamar da crise de desabastecimento de água em São Paulo, algumas características deste evento foram sendo delineadas, e hoje estão bem definidas.

O sistema Cantareira, que abastece 364 municípios paulistas, de um total de 645, atendendo 27,7 milhões de pessoas que respondem por 73% da receita da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico de São Paulo, a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo detém 50,26% das ações da companhia, e os outros 49,74% estão nas mãos de acionistas privados), poderá deixar 6,5 milhões de paulistanos sem água em suas torneiras. A culpa é menos de São Pedro do que do governo de São Paulo que administra a Sabesp, e que subestimou os impactos das mudanças climáticas, da extração desordenada e descontrolada de recursos hídricos, da falta de conservação e proteção dos mananciais, e, não menos relevante, da poluição.

Faltaram, planejamento estratégico na gestão integrada e compartilhada dos recursos hídricos, e os investimentos necessários em obras que poderiam ter amenizado o racionamento existente (sobre o qual o presidente da Sabesp demonstrou descaso ao dizer que “Não existe racionamento, existe uma administração da disponibilidade de água”).

Em 2004, uma série de seminários com especialistas debateram a crise de 2003 do sistema Cantareira, e apontaram para a necessidade de ampliar a disponibilidade de água do sistema, indicando que o melhor caminho para isso era buscar água no Vale do Ribeira através de uma obra que demoraria aproximadamente 10 anos para ser estudada, projetada e concluída, mas que, caso tivesse sido realizada, provavelmente não haveria problema de escassez de água como ocorre atualmente.

E a falta de transparência ficou evidenciada, mais do que nunca, quando foi tornado público um relatório de 2012 da própria Sabesp, revelando o risco de desabastecimento no sistema Cantareira, e alertando investidores da Bolsa de Valores de Nova York para a estiagem prevista e seus impactos nas finanças da empresa. Somente encarou o problema a partir do inicio de 2014, quando criou um bônus para quem economizasse água.

A irresponsabilidade técnica e gerencial da empresa merece ser destacada. O plano enviado a ANA (Agência Nacional de Águas) para operar o sistema Cantareira até abril de 2015 não tem amparo adequado na realidade. A probabilidade de recuperação do sistema é altamente arriscada, com um cenário traçado que já não se confirma neste mês de outubro (2014).

A arrogância e soberba dos gestores da água em São Paulo levaram a Justiça Federal a proibir a captação da segunda cota do volume morto do sistema Cantareira, já que a empresa vinha captando mais água que o autorizado. Tudo se faz para não decretar oficialmente o racionamento, nem prejudicar o valor de suas ações na bolsa. A água é tratada como um mero “negócio”, não como um bem coletivo.

Apesar dos problemas verificados nos anos 2000, o que se constatou foi um aprofundamento ainda maior da política da água como mercadoria, e da empresa a serviço do mercado e de interesses políticos escusos, com diretorias indicadas por estes interesses inconfessos, sem nenhuma abertura para um planejamento técnico sério, vinculado às necessidades da população. Prova disso é o quadro funcional da Sabesp, reduzido de 21 mil trabalhadores para 14 mil. Em particular, o setor de engenharia e operação foi diminuído a ponto de, atualmente, várias unidades terem um quadro de técnicos capacitados abaixo da necessidade para a atividade fim da companhia. Por outro lado, no último balanço divulgado foi comemorado um lucro de 1,9 bilhões de reais da companhia, mostrando que do ponto de vista mercadológico a empresa vai bem.

O centro da questão está na malfadada gestão dos recursos hídricos de responsabilidade do governo do estado de São Paulo. Não por acaso o Ministério Público possui, segundo a Promotoria de Justiça do Grupo de Atuação Especial do Meio Ambiente, 50 investigações sobre a gestão da água feita pela Sabesp.


A mercantilizarão de um bem essencial a vida, cujo lucro, ao invés de usar na realização de obras, paga dividendos a acionistas e especuladores é que tem provocado uma crise de tal dimensão,  e consequentemente o sofrimento da população paulista.

Heitor Scalambrini Costa
Professor da Universidade Federal de Pernambuco